Entrevista

Revelando o Brasil

por Cesar Giobbi


O economista Flávio Comim conta como é feito relatório da ONU sobre o desenvolvimento humano no País


Flávio Comim: "Esta pesquisa vai ajudar a resolver os problemas do Brasil"

O PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP na sigla em inglês) está elaborando mais um relatório de desenvolvimento humano no Brasil, neste momento. E quem o coordena é Flavio Comim, chamado pela ONU a ser coordenador do projeto. Comim, economista gaúcho, com mestrado na USP, onde foi aluno de Eduardo Giannetti, e doutorado em Cambridge, onde mergulhou na área de Desenvolvimento Humano, estava morando na Inglaterra, dando aulas na universidade quando foi chamado pelo PNUD, que tem sede brasileira em Brasília, para coordenar a nova pesquisa. Só aceitou o desafio quando teve certeza que o deixariam inovar no método. A nova campanha nacional chama-se Brasil Ponto a Ponto e vai definir o tema central do próximo relatório do PNUD. Aqui, ele conta como está sendo realizada  esta quarta consulta nacional, e quais os primeiros indícios, surpreendentes,  de resultados.

“Cansei de ver ótimos relatórios irem parar nas estantes. Por isso, acho que o entrevistado brasileiro anda com fadiga de pesquisa. Ele não acredita que aquele esforço vai dar algum resultado. E tem razão. Só que nosso método, de pergunta aberta, sem as opções dirigidas de respostas, transformam as pessoas em parte da solução, e não do problema”, diz Comim, que acrescenta: “Os métodos tradicionais usam o pesquisado mas não lhe devolvem nada. Desta vez, assumimos compromisso com os entrevistados de que esta pesquisa vai ajudar a resolver”.

Coordenador da Brasil Ponto a Ponto
Qual a pergunta formulada? “Andamos pelo País, nas dez cidades com piores Índices de Desenvolvimento Humano, perguntando ‘O que precisa mudar no Brasil para sua vida melhorar de verdade?'. É uma pergunta sobre as pessoas, não sobre o país. Parceiros nos ajudaram a multiplicar a questão por várias centenas de milhares. A Globo já pôs vinheta no Jornal Nacional, isso já saiu no Faustão, no Fantástico; fizemos consulta a 4 mil cursos de pós graduação no Brasil; a Natura capacitou consultores para levar a indagação a cerca de 1 milhão de pessoas; e a TIM, a partir de abril, começou a mandar mensagens e receber respostas via SMS. Estive no Consed, o Conselho dos Secretários Estaduais de Educação que levaram o Brasil Ponto a Ponto às escolas. Há 20 Estados comprometidos. Além disso, MTV, o Museu da Pessoa e muitos sites e blogs nos estão ajudando a divulgar a campanha. E temos parceria com o Portal dos Voluntários, um endereço na internet e uma caixa postal que recebe as respostas. Com isso, até a semana passada já tínhamos 240 mil respostas. E pretendemos fechar a consulta, no dia 15 de abril, com pelo menos 500 mil.

Na semana que vem, grupos de universitários, sobretudo da PUC-RJ, Mackenzie em São Paulo e CDPlar, em BH, começam a tabular as respostas. E a questão é como transformar respostas a uma pergunta aberta em informação tabulável. “Já dá para sentir que temos novidades na reação à pergunta, além de fome e transporte. Por exemplo, que educação preocupa o brasileiro mais do que  saúde e renda; que a violência na escola, o bulliing, terror do recreio, é muito mencionado; a falta de valores morais, a corrupção, os limites vagos entre certo e errado também incomodam os brasileiros; falam da discriminação homofóbica ou contra deficientes, sobretudo mentais; o mais dramático são respostas dos mais pobres, declarando que se sentem invisíveis”, antecipa Comim, que explica: “Os temas que apareceram nos surpreenderam. Estamos entendendo, pelo que nos dizem, que os problemas não são macro. Ainda sinto inércia e apatia. O ideal será quanto o cidadão se convencer de que tem um ponto a defender”.

 

Estes relatórios de IDH começaram a ser feitos em 1990, em caráter internacional. A partir de 1992, eles passaram a focar também no nacional. O Brasil elaborou relatórios em 1996, 2000 e 2005. “Só que os resultados são sempre herméticos. Desta vez, não queremos fazer um texto único. O primeiro será um caderno de consulta, que fica pronto em maio, para dar uma resposta rápida. Faremos um seminário sobre o primeiro levantamento, e uma mostra de fotos, com ajuda da TIM. Em agosto, setembro, vem o diagnóstico, acadêmico mas de fácil compreensão. Uma agenda positiva, visão prática do uso do conhecimento, fechará o ano. E, para fevereiro, o relatório do IDH. A proposta é não só divulgar resultados, mas discutir soluções. O modelo está sendo criado também para orientar montanhas de dinheiro público e privado, investido no mundo muitas vezes com foco errado. E já fez sucesso no PNUD de Nova York, que gostou da idéia, do método inovador, que é bom para divulgar resultados”, diz ele.

Bem, ainda dá tempo de participar deste debate. Os interessados podem mandar suas opiniões, em texto ou vídeo, para o site mencionado acima, até o dia 15. Quanto mais respostas, de brasileiros os mais diversos, seja no aspecto cultural, de renda, de grau de informação, mais rico será o resultado da pesquisa.  




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1 COMENTÁRIO

Fabio E. Monteiro

Pesquisas assim ajudam a desenvolver projetos específicos para os mais diferentes problemas brasileiros. Parabéns pela matéria e também pela pesquisa.

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