Entrevista

O homem do turismo

por Cesar Giobbi


Caio Luiz de Carvalho fala sobre planos e investimentos para a Copa do Mundo de 2014


A Copa do Mundo de 2014 está próxima. Para o Brasil vai ser ótimo. As 12 cidades que sediarem jogos vão se beneficiar de obras de infraestrutura. Mas o País todo ganhará visibilidade positiva, desde que tudo saia direito. Esta é a grande preocupação. Para muitos, já estamos atrasados. Caio Luiz de Carvalho, presidente da SPTuris, faz parte da comissão paulista para aquela copa. A dois meses da escolha definitiva das cidades brasileiras que receberão o evento, o maior do mundo em termos de valores e de telespectadores – na copa da África do Sul são calculados 20 bilhões de pessoas  grudadas na tevê - Carvalho não tem dúvida de  que São Paulo estará entre as 12. E que a abertura da Copa será aqui. E conta como a cidade vai se preparar para isso.
Caio Luiz de Carvalho, presidente da SPTuris
Receber  a abertura da Copa fará muito bem a São Paulo, explica o presidente da SPTuris: “Não queremos só a abertura da Copa, mas queremos receber o Congresso da Fifa, deixando para o Rio a final e o media Center. Já temos tudo planejado. Sabemos até quantas árvores serão plantadas na cidade até lá. Além do mais, a Copa começa em julho, que é geralmente um mês fraco para São Paulo. O país deve receber 600 mil turistas e cerca de 20 mil jornalistas.  Nem tudo isso cabe nos estádios. Mas a cidade incha e se beneficia desse turismo. O comércio trabalha as fun fests, telões para ver os jogos em bares e restaurantes. É dinheiro rolando”. Isso sem falar em todas as obras de infraestrutura que a cidade vai ganhar. Caio elogia Ricardo Teixeira: “Ele foi meu desafeto e agora somos amigos. Acho ele um craque por ter conseguido trazer a Copa para o Brasil em 2014. Porque agora a Fifa acabou com o sistema de rodízio. E não teríamos condições de competir com países da  Ásia, Europa e Estados Unidos”.

Sobre infraestrutura: “Quando se pensa em Copa do Mundo, todo mundo pensa em estádios.  Só que, além do estádio,  o maior problema  é da mobilidade urbana, transporte de massa. Depois vêm as vagas em hotéis, as preocupações ambientais.  São Paulo é a cidade mais preparada para isso. Imagine que a Fifa exige que o país sede tenha pelo menos 40 mil leitos disponíveis. Só a cidade de São Paulo tem 42 mil, o mesmo número que Nova York. E acho que até 2014 teremos um aumento de cerca de 20% nesse número. Além do mais, quanto à demanda de assitência média perto do estádio, temos ao lado do Morumbi não só o Albert Einstein, como o São Luiz, que atende a Fórmula 1 no circuito”,  começa Caio.

Ricardo Teixeira, ex-desafeto, agora amigo

Quero saber se a Lei Cidade Limpa vai atrapalhar os patrocinadores, que não poderão espalhar seus logos por São Paulo. Visa, Sony, Itau, já estão certos. A dúvida é sobre a Coca Cola. O que se diz é que isso pode até inviabilizar a candidatura de São Paulo. Caio diz que isso tudo é ficção: “A Fifa não exige nada de espalhar logos de patrocinadores pela cidade. Ela quer o estádio limpo, para que lá, sim, as marcas sejam expostas e a televisão as mostre ao mundo todo. A Fifa proíbe patrocinadores conflitantes na cidade, e exige isenção de ISS e ICMS das cidades e estados sedes. A Câmara de São Paulo já aprovou a isenção em novembro passado. Além disso,  em todos os jogos, 1 km em volta dos estádios fica bloqueado. Nesta zona, haverá tendas dos patrocinadores com suas marcas.  Só em dias de jogos. E só naquele local. Não vejo como isso fira a lei”.


E os investimentos? “O governador José Serra já separou R$ 20 bilhões para investimento em infraestrutura de transporte público na região metropolitana. E o prefeito Gilberto Kassab investirá pelo menos R$ 2 bilhões. Deve haver verba federal também.  O Estado vai terminar a Linha Amarela do Metrô, fazer a Linha Laranja (da Freguesia até o Pacaembu),  mais o Expresso Aeroporto que sairá do terminal 3 de Guarulhos para a Estação da Luz, mais o Expresso Jabaquara, com trens de superfície, para ligar aquele terminal a Congonhas, mais a recuperação de 274 km de malha férrea da CPTM, mais a Perimetral e o término do Rodoanel”, diz Caio. Que acrescenta que todo esse plano está nas mãos de Francisco Luna, secretário de Estado de Planejamento. 


Kassab e Serra, investimentos para a Copa
E quanto à Prefeitura? “Vai fazer a ampliação do túnel Lineu de Paula Machado, sob o Rio Pinheiros, que é caminho para o Estádio do Morumbi, obras na Chucri Zaidan, a ligação da Avenida Roberto Marinho com a Imigrante, e obras no complexo viário Sena Madureira com Domingos de Moraes, estas últimas para melhoras o fluxo que vem de Santos e do ABC. É importante pensar na ligação com Santos, pois haverá muitos navios hotéis ancorados lá, com gente de fora que vem para os jogos. Agora São Paulo vai levar estes projetos para ver se entram no PAC da Copa, para receber dinheiro federal. Se não entrarem, já estão nos orçamentos do Estado e da Prefeitura”.

E aquela história de se construir um novo estádio público em São Paulo? Caio é contra. “Não podemos repetir o que foi feito no Rio para o Pan.  O orçamento de R$ 300 milhões foi multiplicado por dez, e agora sobraram obras que ninguém sabe como usar. São Paulo já tem o Morumbi, o Pacaembu, o Palmeiras, a Portuguesa. Para a abertura dos jogos, a Fifa quer estádio para 65 mil pessoas, ao custo de US$ 800 milhões ou mais. Fazer mais um? Quem paga se for público? E depois, fica para quem? Já há um consenso em São Paulo de que devemos reformar o Morumbi. O São Paulo Futebol Clube assumiu esse compromisso. Há dois projetos. O que cobre o Estádio, do Ruy Ohtake, que custa por volta de US$ 250 milhões. Aliás, só São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Natal têm estádios que serão reformados com dinheiro privado. As demais cidades precisarão de investimento público para isso”. E se o SPFC não conseguir verba privada para fazer? “Bom, temos até o dia 30 de maio, quando as 12 cidades brasileiras serão definidas. E no dia 1º de novembro vem a primeira inspeção séria da Fifa. Aí saberemos”, diz ele. E acrescenta: “Vi projetos lindos apresentados pelas 16 cidades pretendentes, ao custo somado de R$ 3 bilhões. Só que, até agora, não vi um único tijolo colocado.  Aqui, pelo menos, a Visa já trocou as cadeiras do Morumbi e a Globo reformou o portão 17. É preciso lembrar também que não há dinheiro disponível no mercado internacional, e que 2010 é ano de eleições no Brasil. Eu diria que, com tudo isso, já estamos atrasados”.

E os aeroportos, já que Cumbica e Congonhas parecem ter sua lotação esgotada? “Durante a Copa, a Anac  calcula que teremos 500 vôos extras diários pelo País, com um movimento de 50 mil pessoas a mais todo dia. A Infraero promete melhorias nos aeroportos paulistas, para aumentar sua capacidade de fluxo de passageiros de 18 para 20 milhões em Congonhas, de 1,5 milhão para 8 milhões em Viracopos, e quase duplicar a capacidade de Cumbica, com a construção do Terminal 3, para cerca de 30 milhões de passageiros.  Isso apressa a decisão do governo federal, se pretende mesmo privatizar Viracopos e o Galeão.  Agora isso virou decisão estratégica, se queremos viabilizar a Copa num país continente.
Copa do mundo é business. Os números são impressionantes, quando se fazem as contas.  Diz Caio: “O Brasil recebe hoje cerca de 5,5 milhões de turistas estrangeiros ano. Enquanto tem  90 milhões de viagens domésticas ano. O número de visitantes estrangeiros, em ano de Copa do Mundo, pode ter um aumento conservador de  10%. Mas na Alemanha foram 20% a mais. Segundo cálculos da OMC, cada sete mil turistas que chegam a um destino  geram um emprego direto. Além do mais, esse turista fica, normalmente, três dias em cada cidade, e gasta uma diária de cerca de R$ 300, sem contar passagens e hotel. No caso da Copa, o turista vem por pelo menos 20 dias, para gastar cerca de R$600, dia. Tem mais: o residual de interesse no país, no ano seguinte à Copa, ainda provoca um aumento de 20% no turismo estrangeiro. Será um grande negócio para o Brasil. Por isso, tem de ser encarado sem purismos e romantismos”. Um evidente recado para concorrentes que acham que podem receber a abertura da Copa, mas que não têm a estrutura e o poder de São Paulo.
 



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