Entrevista

Cuidados com a terceira idade

por Cesar Giobbi


Christiane D'Andrea fala sobre o Hiléa, um empreendimento dirigido para o público idoso


O prédio do Hiléa. no Morumbi, centro de atendimento para a terceira idade

O Brasil está envelhecendo. Quer dizer, o brasileiro. Nossa expectativa de vida cresce à medida em que a medicina faz progressos e a qualidade de vida do brasileiro melhora. Cálculos indicam que, em 2020, seremos cerca de 32 milhões de brasileiros com mais de 60 anos. Sim, eu sei, não se irritem comigo, aos 60 anos ninguém pode mais ser considerado idoso. Nem aos 70, eu diria. Mas as estatítiscas sociais e médicas ainda colocam a porta da terceira idade neste aniversário. Também é dado como certo, hoje, que quem chega até os 60 tem todas as chances de viver por pelo menos mais 25, 28 anos.  Ou seja, esta última etapa pode ser longa. Portanto, senhores empresários e profissionais liberais, quem investir em serviços, consumo, bens patrimoniais para este nicho da população estará fazendo uma aposta segura.
Cristiane D'Andrea, diretora do empreendimento
É o que pensa Cristiane D’Andrea, sócia e diretora do empreendimento Hiléa, aberto em dezembro de 2007, no Morumbi, um centro de atendimento para a terceira idade, ou “centro de vivência para a maturidade”, como se autodefine. O foco é a classe A. O prédio tem arquitetura de Felipe Aflalo, de Aflalo e Gasperini, os interiores da parte social são de Sig Bergamin, paisagismo de Isabel Duprat, só para dar uma idéia dos cuidados estéticos.  Até a luz é assinada, pela Mingroni Iluminação, uma luz sem sombras e contrastes, e que compensa o entardecer, pois esta hora do dia deixa os pacientes, especialmente os com Alzheimer, muito ansiosos. Um investimento caro, que precisou de vários sócios como a Stan (incorporadora) a RFM (construtora) a Partage, a Illan e dois fundos de private equity, e que só vai alcançar seu ponto de equilíbrio em mais um ano de funcionamento.

Cristiane, formada pela FGV, é do ramo. Vem de uma família de donos de hospital, o Nossa Senhora de Lourdes, onde ela criou o Hospital da Criança, e onde deu vez, em 1991, aos Doutores da Alegria. Em 2001 sua família vendeu o hospital, e ela começou a formatar este projeto para a terceira idade. “Se eu soubesse, na época, que ia levar seis anos para sair, talvez tivesse desistido.  A idéia já existia, pela experiência com idosos no hospital da família. O Brasil não está acostumado a enxergar o idoso. Não há praticamente nada dirigido a ele no mercado imobiliário. Mas os idosos brasileiros são uma realidade. Em Copacabana, por exemplo, 30% da população tem mais de 60 anos. São muitos. E normalmente bem de vida, com aposentadorias, patrimônio, uma condição financeira melhor que a dos jovens. Um mercado inexplorado. Ao mesmo tempo, o País precisa estudar estes números e encontrar soluções para a Previdência, para a Saúde”, analisa ela.

O quarto, com todos os equipamentos
O Hiléa foi pensado, basicamente, não para o idoso que não quer mais ter uma casa. Mas para o que não pode mais viver sozinho e tem de ser assistido. Mesmo que seja apenas em parte do dia.  Há os problemas físicos, como reabilitações depois de quedas e quebras de ossos e de bacia, até os problemas de demência, nos vários estágios do Alzheimer. Por isso, o centro tem programas apenas para freqüentar a área de natação ginástica e terapias, outro para vivência diária (pelo menos três vezes por semana) e as internações, com andares diferentes para pacientes que precisam apenas de assistência e outros com problemas mais sérios. Há, por exemplo, um rapaz internado em coma constante.

“Tudo aqui foi pensado no idoso que já tem problemas de memória. Os quartos são todos individuais, com área confortável. As camas são alemãs, hospitalares, com todo o equipamento possível, mas disfarçadas, para o quarto não ficar com ar de hospital. Na parede atrás da cabeceira há todas as tomadas e entradas necessárias para um atendimento de urgência, mas escondidas atrás de um quadro que desliza para o lado. Muitos armários, para quem vai morar. E um banheiro grande, com porta grande, pensado para cadeirantes também, e com dois tons de parede para que o paciente enxergue o fundo, e o vaso bem de frente para a porta. O idoso às vezes sente uma indisposição e não lembra que está com vontade de ir ao banheiro. Há um trilho que percorre o quarto até o banheiro, com um guincho para os que não conseguem se levantar”, explica Cristiane. São 119 quartos, 41 deles ocupados. Os demais pacientes chegam para o dia ou para usar os equipamentos. Em cada andar, pensado no conceito osso de cachorro, há um lounge num dos lados e um refeitório no outro, assim o paciente tem de andar ou  se locomover, criando uma atividade.

A sala de convivência dos idosos
Mas para as vítimas do Alzheimer há muito mais. Tudo foi criado para estimular a memória. Há uma praça em que há a fachada de um cinema, lojas, barbeiro e cabeleireiro, com ares de anos 50, para que os octogenários de hoje se identifiquem. Lá eles passam as tardes, tomam chá, ouvem piano e até cantam. Mas há também sessões de terapia artística, que têm revelado talentos inesperados. Sem falar na hidroginástica, sauna, aulas de ioga e alongamentos, muitos exercícios feitos em cadeiras.

No andar térreo há um grande salão, onde são organizados os bingos, o restaurante, muito chique, uma sala de jantar menor para reuniões familiares, as cozinhas e um auditório para cinema, shows e palestras. No primeiro subsolo estão a mencionada praça e os consultórios de geriatria, oftalmologia, fonoaudiologia. No segundo subsolo, as piscinas, salas de terapias ocupacionais, de reabilitação, massagem, os consultórios de fisioterapia, o cabeleireiro e o barbeiro. Nos andares superiores, a administração e os quartos. A complexidade atendida vai até a semi-UTI. Toda a parte médica é da própria Hiléa. E as enfermeiras não vestem branco, de propósito.

A academia de ginástica com aparelhos adequados
“A idéia principal é a de dar solução a problemas que surgem com a idade. É preciso reconceituar os serviços de atenção ao idoso. À medida que o tempo passa, as pessoas precisam de exercício, convivência, monitoramento de doenças crônicas e auxílio com a perda da capacidade funcional. Especialmente se houver sintomas de demência (Alzheimer). Visitei muitas instituições nos Estados Unidos, Holanda, França e Canadá. Nos Estados Unidos há redes com 300, 400 prédios como este, todos separados por estágio. Eu gostei da hotelaria americana, mas preferi o conceito holandês, que junta os vários estágios. Se não, um idoso, quando piora, ainda tem de fazer uma mudança, o que não faz sentido. No Brasil, como ainda há muito serviço nas casas, as pessoas só se mudam para um local como o Hiléa quando não há mais jeito. Na Europa e EUA não é assim”, vai contando Cristiane. Que acrescenta: “Nosso empreendimento é para a classe A. Para as classes inferiores, é preciso escala. Teria de ser maior. Ou em maior número. Aqui, não pretendemos crescer. Prefiro montar uma nova unidade. E será sempre urbana, integrada à cidade, para o paciente manter a relação com a família”

Internar um parente ainda é psicologicamente complicado no Brasil. “As pessoas não estão acostumadas a ver serviços como o que oferecemos. A impressão do internamento de idosos é sempre muito ruim e revestida de culpa. Dos dois lados. Fiz muitas entrevistas e concluí que os que internam sentem culpa por não cuidar pessoalmente, e os internos sentem culpa por não gostar dos cuidados que recebem, embora saibam que custam.  É preciso rever estas culpas. É preciso pensar que quem traz o idoso para cá está cuidando. E depois, não sentir-se culpado por não ter culpa. Não é fácil. Aqui, temos psicólogos para atender o paciente, os familiares e os funcionários. O que é preciso é de uma mudança cultural no paradigma do cuidado”, diz Cristiane.

A equipe que trabalha no Hiléa, sempre a postos para um atendimento digno



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2 COMENTÁRIOS

Juliana

adorei sua matéria.. tenho 18 anos e acho correto pensar lá na frente. fica c DEUS beijossss

Claudia Maria de Quadros Simonetti

Sei que é uma utopia, mas era pra ter um empreendimento desses para TODOS os idosos, não fosse a ganância de nossos políticos que enriquecem mais e mais a custa do povo brasileiro. Como eu gostaria de poder morar num lugar como esse, quando chegasse a minha hora!

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