Europa

Os ¨sin papeles¨

por Ana Carolina Ralston


E sem muito mais o que levar consigo


Com a cordinha na mão, este imigrante ilegal aguarda o aviso de seus companheiros

Final de tarde na rua mais chic de Barcelona, a conhecida Passeig de Gracia. O crème de la crème de moradores e turistas que visitam a cidade passeiam pela zona e tomam seus cafés, drinks e derivados nos glamurosos bares que se espalham pela larga avenida. Outros se dedicam a fazer compras no seleto grupo de lojas que enfeita sua extensão.

No reflexo destas vitrines se reconhece a rua, seus clientes e algo mais: um grande número de bolsas, cintos e óculos estendidos na própria calçada para venda. São peças falsificadas com o logo das melhores grifes, como Chanel e D&G, comercializados por um décimo de seu preço original.

Todos os itens estão arrumados cuidadosamente em cima de um pano velho, que possui uma cordinha. E no fim dela vemos uma mão, a mão de um dos milhares imigrantes africanos ilegais chamados de ¨sin papeles¨.

Estes são em sua maioria homens, que, com olhos amedrontados, giram a cabeça de um lado ao outro na espera de algum guarda, que lhes obrigará a puxar esta tal cordinha com toda a rapidez possível, transformando o pano velo estendido em uma grande bolsa em questão de segundos.

Aí sim, com todas as peças dentro, o grande saco esta pronto para ser levado sobre os ombros destes fugitivos, que correm pelas ruas paralelas do glamuroso passeio tentando esconder-se para salvar suas vidas, e a ainda com mais fervor, a mercadoria.

Embora todo o problema da imigração ilegal seja um assunto recorrente entre os lideres europeus, mais uma vez a África sai de mãos vazias da reunião do G8. Os sete lideres, que já haviam prometido em reuniões passadas duplicar a ajuda aos africanos até 2010 para o combate da AIDS, malária e tuberculose no país, foram cada qual a sua casa, sem dizer uma só palavra sobre o assunto.

E mais uma vez a África terá que se apanhar como pode, e continuaremos a ver os olhos desesperados dos sem papeis, sem opções, sem dinheiro, sem dignidade. Afinal, seus ombros só suportam o peso do saco de acessórios e toda a desgraça em que vivem hoje milhares de fugitivos daquele continente.

Estes imigrantes chegam ao outro lado do estreito de Gibraltar em embarcações ilegais. O objetivo é desembarcar na costa espanhola sem levantar suspeita. Caso sejam descobertos, são enviados automaticamente a seus países de origem, salve raras e honrosas exceções. Já são centenas de subsaarianos que morreram durante os seis primeiros meses de 2008 na tentativa de chegar à península ibérica.

Há poucos dias 48 imigrantes africanos, 14 deles mortos, foram resgatados em um pequeno bote a deriva, que tentava chegar a costa da Espanha. Quando a mãe da única criança viva das nove que estavam na embarcação viu que era seu filho, desmaiou e foi levada pela equipe da Cruz Vermelha a um hospital. Ambos estão sendo cuidados até que possam ser expulsos do país e enviados novamente a África.

 - Coitados! Disse um homem que lia a noticia no metro no dia seguinte. Conversava sobre o assunto como se falasse da morte de um ente querido. Sofria ao pronunciar a dura realidade dos imigrantes expulsos.

Enquanto discursava sobre o tema que lhe havia tocado tão a fundo, fechava a bolsa que levava de forma desconfiada, com o rabo de olho grudado em um árabe vestido como a religião mulçumana manda, que sentava ao seu lado com um jornal na mão para esperar o metrô.




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