Entrevista

O coração do MAM

por Cesar Giobbi


Milu Villela fala sobre os novos projetos e os 60 anos do Museu de Arte de São Paulo


O Museu de Arte de São Paulo completa 60 anos, na terça-feira

O MAM, Museu de Arte Moderna de São Paulo, faz 60 anos, que serão comemorados a partir da terça-feira, 15, com duas mostras espetaculares. A primeira, que será inaugurada exatamente na terça, é sobre a obra de Marcel Duchamp. Uma superprodução do MAM, com a colaboração de museus e colecões privadas e públicas de várias partes do mundo, e que depois deve viajar para Buenos Aires.  E, a partir de outubro, o MAM volta a ocupar a OCA com uma mostra histórica e um viés ambiental:  uma mostra de Frans Krajcberg ocupará todo o subsolo.
Esta é a grande surpresa que Milu Villela estava mantendo em segredo até agora. “Foi difícil conseguir esta mostra de Krajcberg. Ele  está muito sentido com São Paulo, que não quis montar o museu com suas obras aqui no Ibirapuera. Foi preciso muita sedução, tive de ir a Nova Viçosa, trazê-lo a São Paulo. Mas quando se convenceu, imaginou a montagem  só de olhar o espaço. É impressionante vê-lo criar. Ele imediatamente soube o que queria colocar em cada lugar”, diz Milu, uma entusiasta do artista polonês, radicado no sul da Bahia, mas conhecido, exposto e premiado no mundo todo. A mostra terá suas grandes esculturas, mas também fotos de queimadas, som e até cheiro. Como tem feito nas últimas décadas, suas exposições são verdadeiros libelos contra desmatamento, queimadas,  desequilíbrio ecológico.

Nos andares superiores, o MAM apresentará 500 obras de seu acervo, e mais 45 emprestadas pelo MAC, que faziam parte do acervo original.  Isso é para lembrar que o MAM e o MAC tiveram a mesma origem: Ciccillo Matarazzo. Fundou antes o MAM e depois o MAC, tirando o acervo do primeiro e entragando-o à guarda da USP. “A participação do MAC nesta mostra é muito importante. É uma maneira de reaproximar os dois museus. Uma confraternização”, diz Milu. É preciso lembrar que os dois museus já tentaram uma associação, nos anos recentes, quando pensaram até em dividir a mesma sede. O que não deu certo.

Krajcberg fará uma grande exposição em outubro
A mostra da OCA terá a curadoria de Anna Teresa Fabbris e Luis Camilo Osório, “e se baseia nos grandes núcleos de artistas que ajudaram a definir o moderno, como Flávio de Carvalho, uma chave para entender a primeira coleção e a atual”, explica Felipe Chaimovich, curador do MAM. E toda a campanha para festejar os 60 anos do museu foi criada pela DPZ, de José Zaragoza, que é amigo do MAM há décadas. É dele o logo do museu.

Vamos à história. O MAM foi fundado por Ciccillo Matarazzo em 1948 no prédio dos Diários Associados, na 7 de abril, como o Masp.  O primeiro conselho tinha Antonio Candido, Vilanova Artigas e Luis Saia. O acervo, no entanto, ficava exposto na Metalúrgica Matarazzo, na Rua Caetano Pinto.  Tinha preciosidades:  Picasso, Dufy, Chagall, M iro, e os brasileiros Malfatti, José Antonio da Silva, Volpi, Bonadei, Di Cavalcanti, entre outros. Ou seja, a coleção particular de Ciccillo e Yolanda Penteado.  A 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, foi realizada pelo jovem MAM, com a presença de 21 países, no Trianon, na Avenida Paulista.

Em 1962, Ciccillo cria a Fundação Bienal de São Paulo, que passará a se ocupar das Bienais. E no ano seguinte, doa o acervo à USP, criando o MAC.  Em  1968, cinco após ter perdido seu acervo, o MAM se instala na marquise do Ibirapuera. E no ano seguinte realiza seu primeiro Panorama, mostrando seu foco na arte contemporânea.  Nestas décadas, o museu foi juntando um acervo, baseado em doações, e foi dirigido por figuras ilustres como Mário Pedrosa, Joaquim Bento Alves de Lima, Dinah Lopes Coelho, Flavio Pinho de Almeida, Luis Seraphico de Assis Carvalho, Paulo Egydio Martins, Aparicio Basilio da Silva, Dadiche Levy.  Até aí, o prédio já tinha sido reformado por Lina Bardi, já tinha sua Biblioteca,  seu Jardim de Esculturas e seu Clube da Gravura.

Duchamp, no MAM a partir de terça-feira
Milu Villela assume em 1995. Nesses 13 anos, o museu cresceu bastante em acervo e visibilidade. O número de obras passou de 1899  até 1994 para mais de 5 mil até o momento. Não só doações, mas aquisições. As doações hoje passam pelo crivo de uma comissão, e as aquisições são pensadas para preencher lacunas do acervo. “Só aceitamos o que interessa. O museu é rigoroso nos conceitos, com uma diretriz clara de interesse pelo contemporâneo, uma orientação que começou com o Tadeu Chiarelli”, explica Chaimovich.

Quanto ao espaço, ele é obviamente insuficiente para um museu que tem  a importância do MAM para São Paulo. “Por enquanto, vamos ficar por aqui m esmo “, diz Milu. “Mas ocuparemos outros espaços quando necessário, como estamos fazendo pela segunda vez com a OCA. Além do mais, temos experiências bem sucedidas de espaços expositivos em shoppings, e mantemos filiais da Loja do MAM nos shoppíngs Iguatemi e Villa Lobos e na Casa Cor de São Paulo, que por sinal está vendendo muito bem.  Isso dá visibilidade e fortalece a marca do MAM”, prossegue Milu.

Além disso, o acervo e as produções do MAM viajam bastante: o Panorama 2007 foi para Madri; o Panorama 2003 foi para Bogotá, a mostra de Volpi acaba de voltar de Buenos Aires; em outubro, a mostra de artistas brasileiros e japoneses que acaba de ser encerrada vai a Tóquio; em 2010, a coleção de fotos do museu vai a Montpellier, na França; em 2010 e 2011, há um projeto em conjunto com o Instituto Valenciano de Arte Moderno. Entre outros planos. “Essas mostras que vão e vêm repercutem na imprensa internacional. Além do mais, sempre conseguimos ampliar o acervo com aquisições e doações de artistas de fora” acrescenta Milu. “O MAM virou referência. O artista Nunca, que está agora na Tate, já fez o nosso Projeto Parede no ano passado. Assim como o Marepe”, lembra Milu. Para o ano que vem, o ano da França no Brasil, o MAM se prepara para armar uma mostra de jardins criados por artistas plásticos e paisagistas, como no Castelo de Chaumont, na França.

Milu Villela, 13 anos à frente do MAM
Nesses 13 anos de gestão, Milu Villela se orgulha de ter conseguido colocar o museu no azul. Museus privados são um problema no Brasil. Não têm verbas públicas fixas. Vivem do que conseguem levantar. Milu, há uns anos, chamou Cláudio Galeazzi, que já salvou muita empresa grande, e deu um jeito de profissionalizar o MAM, dando-lhe sustentabilidade. Hoje, o museu fecha o ano com dinheiro em caixa, para projetos do ano seguinte. Hoje o museu tem  uma equipe profissional que o dirige, comandada por Bertrando Molinari, que tem feito mudanças administrativas importantes, otimizando o espaço dos bastidores do museu, aquele que o visitante não vê, mas que é a alma da casa.

Na gestão Milu  surgiram o Clube da Fotografia, o Núcleo de Arte Contemporânea, que não só ajuda a aumentar o acervo do museu como cria uma nova geração de colecionadores e de conhecedores da arte,  e a menina dos olhos de Milu, o Educativo do MAM.  “Tudo o que eu vejo é através da Educação. Temos convênios com escolas que vêm várias vezes por ano.  Temos projetos para incentivar a criatividade, como o que fizemos por dois anos com a arteeducadora Anna Marie Holm, temos outro que supõe o engajamento dos pais, o Família MAM, treinamos professores da rede pública, temos projetos para portadores de necessidades especiais, o Igual Diferente, que foi apresentado num Congresso do Bird e fez o maior sucesso. Eu tinha levado só um DVD, e todo mundo pedia”, diz Milu.  E acrescenta: “O pessoal do Educativo trabalha com paixão, se multiplica, sempre vai além do esperado. Fomos convidados para apresentar o projeto do Educativo em Kassel. Isso abre os horizontes”.  Nunca é demais lembrar que Milu Villela dirige o Itaú Cultural, que no momento apresenta uma bienal de arte e tecnologia, que dirige o Voluntariado, o Faça Parte, e participa do projeto Todos Pela Educação, com  grandes empresários nacionais, como Jorge Gerdau, mais o ministro da Educação, Fernando Haddad.  Mas é de seu pequeno escritório no museu que ela consegue administrar tudo isso. Por tudo o que faz, ela não pode afirmar. Mas quem convive com ela sabe que seu coração fica no MAM.
   



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9 COMENTÁRIOS

CASSIA TIANE DO SANTOS

O MESEU É LINDO PARABENS AMEI AS OBRA DE MARCEL DUCHAMP

Angelo tadataka Sakemi

impressionante o patrimonio dos artistas.A oportunidade para-artistas onde está? Estou para ver um espaço no MAM para tais obras !!!!!!!!!!!! bastante criativo não.

elisabeth a monteiro

Milu, milluz, milluzes a clarear a cultura nacional. Parabéns!

helio rezende

Dama inteligente, idealista e muito simpática, benfeitora de São Paulo, do Brasil e da humanidade! Parabéns!!! Voce encanta os artistas com sua vontade e trabalho.

Janaina R.S.

"Excelente", o Brasil merece pessoas que continuem o seu legado Artístico, Cultural, e Social da História Brasileira.

armando ceravolo

querida Milu ,parabeNS O BRASIL ,PRECISA DE DIRIGENTES COMO VOCE .

Samir Razuk

A Malu é sensacional. Conseguiu criar no Brasil interesse pela arte e desenvolver cursos para o aprendizado, além de se dedicar a missões beneficentes.

ROSANGELA ROMÃO FERNANDES

ESTE TRABALHO E MUITO BOM E ENREQUECEDOR PARA NOSSO PAÍS ,É UMA PENA QUE AS PESSOAS EM GERAL NÃO O DEDIDO VALOR

Daniel di Pierro

precisamos ter mais mulheres de fibra como essa senhora

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