Cultura
Mundos diferentes
por Thomás Levy
A fantasia de Neil Gaiman se encontrou com o universo urbano de Richerd Price
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Gaiman e Price comentaram suas obras. Foto: Emilia de Aratanha |
Talvez isso tenha sido uma injustiça com Richard Price, o outro convidado da noite. De qualquer forma, ele não se deixou intimidar e mostrou por que foi um dos escolhidos pela organização do evento. Antes de começar, conquistou o público com um comentário afetivo: “gostaria de agradecer a todos por terem introduzido a cachaça em minha vida”, comentou. “Nunca conheci uma dor de cabeça tão interessante e diferente, nem uma tão insistente.”
Marcelo Tas, o mediador da noite, contou um pouco da trajetória de Richard. O escritor é o rei da ficção urbana, e escreveu roteiros para diversos filmes e para a série “The Wire” da HBO. Price leu uma parte de seu novo livro “Lush Life”(que Tas insistiu em chamar “Lust Life”), e mostrou um pouco de seus diálogos perspicazes e de sua observação astuta da vida urbana de guetos.
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Price gosta de entender um contexto antes de escrever sobre ele |
Tas começou perguntando como eles escreviam diálogos tão bons e tão reais, se havia alguma técnica secreta em ouvir conversas alheias ou algo parecido. “Diálogos reais são horríveis”, discordou Price, “diálogos bons são diálogos falsos. Conversas vão do nada a lugar nenhum, muita coisa é dita em olhares e gestos. Você tem que tirar todos os rodeios da fala, esquecer a conversa real e escrever não o que as pessoas diriam, e sim o que elas queriam dizer.”
Neil Gaiman, jornalista por formação, disse algo parecido. “Eu notei isso quando era jornalista. Gravava entrevistas e tentava transcrevê-las literalmente, mas elas ficavam sempre horríveis. As pessoas não falam em frases; muitas coisas não são ditas, muitas idéias ficam inacabadas. Você precisa transformar a fala em escrita, e são coisas bem diferentes”.
Price, entretanto, disse ter feito muitas pesquisas em bairros em guetos de Nova York. “Eu faço essa pesquisa por que na verdade não gosto de escrever. Eu gosto de conviver. Você pára e ouve. É como ir a um show. Você ouve tudo que está tocando e algum hora, sem notar está se mexendo com música. Você não vai até lá copiar frases, você vai para lá para entender a dinâmica do lugar.”
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Tas não soube conduzir a discussão. Foto: Emilia de Aratanha |
“Sim, também fazia caretas”, assumiu Richard. “E não pude mais escrever em casa quando, um dia, enquanto recitava um trecho um pouco mais grosseiro vi que na sala estavam minha filha e uma amiga. Imagino o que os pais da garota pensaram quando ela chegou em casa e comentou o tipo de coisa que eu estava falando! (risos)”
Marcelo Tas cometeu um erro, entretanto, ao começar a direcionar perguntas especificas para cada autor. A discussão logo se tornou fragmentada e Richard não recebeu a atenção que merecia, algo que Gaiman comentou com a redação do ONNE após a mesa. O motivo disso pode ser visto com clareza ímpar no blog de Tas.
Sobre suas colaborações com artistas para a produção de quadrinhos, Neil explicou como orienta seus parceiros. “Escrevo uma carta especificando pagina por página, quadro a quadro, o que eu quero. Algumas vezes mando até fotos e fotocópias de coisas que quero como referência. Geralmente isso funciona, mas há alguns artistas que ignoram tudo o que eu digo e ainda sim funciona. A Morte era uma personagem que eu imaginara loira e bem magra, mas o que recebemos foi a encarnação que hoje todos conhecem, e foi melhor assim.”
Richard falou um pouco sobre o local que usa como cenário de seus livros: o Lower Side de Manhattan. “Nasceu como um bairro de imigrantes, que viviam em péssimas condições, e por isso tinham de ter histórias de sucesso para poder sair de lá. Conforme os anos 80 foram chegando, os imigrantes saíram e aquele ponto se tornou um point de traficantes e gangues.”
“Com as políticas do prefeito Giuliani, inspiradas por políticas de exploração imobiliária, o lugar hoje se tornou um point de artistas e de novos-ricos. É um lugar excelente por sua história de mudanças extremas, e eu exploro a transição de birro barra-pesada para point de artistas.”
Tas perguntou o que eles achavam desse mundo onde todos se escondem com medo da violência, e como eles lidam com isso em suas obras. “Eu vou para lugares onde não é preciso trancar a porta”, diz Neil. “Quando era jornalista da Time-Out, tive de fazer uma matéria pelas ruas mais perigosas de Londres, e nada aconteceu. Meu chefe me deu telefones de policiais, advogados, hospitais; havia uma grande preocupação. Ainda sim, nada aconteceu. As pessoas que encontrei foram gentis.”
Price contou um pouco de sua experiência com sus filhas. “É importante saber negociar com a cidade. Se trancar e fingir que nada acontece é um erro, é melhor caminhar, prestar atenção, conhecer seu ambiente do que se trancar. Pessoas moram em vilarejos, não em cidades. As vítimas são sempre pessoas de seus vilarejos. Acho eu esse pavor acaba sendo explorado de formas negativas.”
Tas perguntou a Neil sobre seu blog, que hoje tem mais de 1 milhão de acessos mensais, e ele contou um pouco de sua história. “O fiz para contar aos leitores tudo que ficava nos bastidores enquanto escrevi Deuses Americanos. O blog deveria terminar em setembro de 2001, mas depois dos atentados terroristas, recebi muitos e-mails de leitores dizendo ‘nós gostamos disso, não deixe que isso acabe!’, e então eu pensei em continuar por mais alguns meses. Já faz sete anos.”
Ambos os autores afirmaram que gostam de trabalhar com Hollywood por motivos financeiros, mas não há um grande desejo de dedicarem-se exclusivamente ao cinema. Neil tem planos de dirigir um filme, ms disse que depois se dedicará à literatura por um longo período.
SERVIÇO
A livraria Book in the Box patrocinou o ONNE em Paraty
Book in the Box
Rua Bueno Brandão, 66
Vila Nova Conceição - São Paulo
Fone: 3842-5118
Bookinthebox.com.br
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1 COMENTÁRIO
kkkkkkiiiiii
boa sorte
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