Cultura
Sonhos, deuses, fantasmas e Neil
por Thomás Levy
Em uma conversa na Flip, o autor falou um pouco sobre suas crenças, suas obras e reflete sobre os diversos meios nos quais trabalha
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Neil, de um charme ímpar, se mostrou perplexo com algumas perguntas. Foto: Emilia de Aratanha |
Em 1989, o Brasil ganhou de presente uma obra de arte. Foi nesse ano que a editora Globo publicou pela primeira vez as revistas da série Sandman, uma publicação que subverteu a lógica dos quadrinhos e foi uma das grandes responsáveis pelo reconhecimento do meio como uma forma válida de arte.
O Brasil foi o primeiro país do mundo a traduzir e lançar essa obra de Neil Gaiman. Hoje, quase vinte anos depois, mais de 80 países já publicaram suas versões da série de quadrinhos que acompanhava um personagem longe de ser um herói. A história de Sandman, o rei do sonhar, tem uma legião de fãs e pega emprestadas referências de literatura clássica e mitologia.
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"Acredito em qualquer coisa que eu esteja escrevendo". Foto: Emilia de Aratanha |
Sua obra há muitos anos já envolve outros meios além dos quadrinhos. Autor de roteiros, livros, e com uma obra adaptada para o teatro, o cinema e até para músicas, Ele diz estar feliz por viver em um mundo com tantos meios diferentes.
“Quando uma obra passa de um meio para outro, várias coisas sempre são perdidas. Por outro lado, ela ganha novas dimensões e novas referências. Coraline é um excelente exemplo: A história nasceu como um livro infantil com toques de história de horror. Em breve, será lançado um longa metragem de animação stop-motion. A história foi transformada em uma peça e em um musical, com direito a um drag queen no elenco. Eu provavelmente amarei todas essas versões, pois mesmo que um pouco distantes do original são visões diferentes de uma mesma coisa.”
Mas nem sempre isso funciona dessa forma. A BBC começou a escrever um roteiro inspirado no livro Anasi Boys, lançado no Brasil como Os Filhos de Anansi pela editora Conrad, que não foi aprovada por Neil.
“Eu vi aquele roteiro e pensei: ‘ah! Posso fazer melhor que isso’ e comecei a preparar um novo para a Warner Bros. Já há planos de quem deve ser o protagonista, e o Guillermo Del Toro deve produzir.” Neil tentou desconversar, mas acabou nos contando uma novidade: “Sim, os planos são para que eu dirija o filme. Mas ainda está em fase de pré produção. O filme baseado nas histórias da Morte acabou se atrapalhando com o fechamento de alguns estúdios, então não sabemos se algum dia ele acontecerá ou não.”
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Bom humor em solo paratyense. Foto: Emilia de Aratanha |
Escrever histórias com tantas referências de religiões e mitologias pode parecer algo complexo por um ponto de vista de pesquisa, mas segundo Gaiman, as coisas não funcionam bem assim. “Quando eu começo a escrever, já sei de tudo que vou falar, quais as referências que serão usadas. Eu, como autor, tento trabalhar da seguinte forma: eu pesquiso, aprendo, esqueço e escrevo. Muitos anos depois, eu releio algumas coisas e até estranho, sei que tinha certeza de alguma informação que usei mas não sei como. Isso me agrada. Mesmo com ou sem pesquisa, eu acho que ficção nunca pode intimidar.”
Quando questionado sobre o período pelo qual passa Hollywood, com tantos filmes baseados em quadrinhos, Neil foi peremptório. “Hollywood sempre teve esse problema. Em uma época, muitos filmes eram baseados em musicais da Broadway. Em outra, eram os livros, hoje são os quadrinhos. Não há uma época em que você pode olhar para Hollywood e dizer ‘era nessa época que eles eram originais’. Mas isso na verdade é irrelevante. O que conta e se o filme que resultou é bom.”
Uma jornalista perguntou a Neil o que ele achava de que em muitos lugares quadrinhos ainda serem considerados arte de segunda linha. “Ainda me fascina que isso seja trazido à tona e discutido. Essa é uma briga que já se encerrou; nós já ganhamos. Em 1992, Maus, de Art Spiegel ganhou o prêmio Pulitzer. Pouco tempo depois, Watchmen, de Alan Moore foi escolhido como um dos 100 melhores livros do século XX pela revista Time. Minha história Sonho de Uma Noite de Verão também foi premiada. Quadrinhos são diferentes, assim como o cinema é diferente, assim como livros são diferentes. É um argumento arcaico, deslocado dizer que quadrinhos ainda são vistos dessa forma.”
Questionado sobre downloads ilegais de seus livros, o autor comentou que “os inimigos da literatura não são as pessoas que não compram os livros; são pessoas que não lêem”
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Neil prova ser um autor versátil e talentoso. Foto: Thomás Levy |
SERVIÇO
A livraria Book in the Box patrocinou o ONNE em Paraty
Book in the Box
Rua Bueno Brandão, 66
Vila Nova Conceição - São Paulo
Fone: 3842-5118
Bookinthebox.com.br
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2 COMENTÁRIOS
H.D.R.
Gostaria de apreciar trechos das obras citadas nessa matéria. Compara-se a degustar algum doce antes de comprá-lo.Não sou inimiga da literatura. Gosto de ler.
Wellington Santana
O fato de Gaiman não utilizar de uma pesquisa solida para seus trabalhos serve para desbancar muitos pseudo escritores que usam de sua influencia para se infiltrar no ambiente de sua atenção e escrever a partir disto. Gaiman, durante a edição do Sandman e em seus outros trabalhos, mostrava ambientes miticos e tempos passados sem uam visão romanceada desta realidade. Exibia fatos e os desmistificava, ao mesmo tempo em que encobre, com uma manta de mistério a nossa realidade.
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