Cultura
Entre a projeção e a caneta
por Thomás Levy
Um diálogo entre o cinema e a literatura, sem compromisso com um final feliz
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Samuel mostrava nervosismo, mas foi um dos melhores moderadores do evento. Foto: Emilia de Aratanha |
João Gilberto Knoll começou com a leitura de trechos de dois de seus livros. Em suas próprias palavras, sua literatura é “tremendamente atlética no erótico. Os personagens buscam preencher o vazio da existência com o deleite carnal.” Lucrecia apresentou um trailer de seu novo filme, “La Mujer Sin Cabeza”, e comentou seu amor por Salta, a província na qual cresceu e onde filmou seus três longa-metragens.
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Lucrecia se inspira muito com o ambiente em que cresceu. Foto: Emilia de Aratanha |
A narrativa não-linear e a presença do profano também marcam a obra do autor. “palavras pornográficas tem de entrar como um recurso estético, assim como as palavras mais belas. Eu escrevo mais por impulso, me identifico com um pintor expressionista, que joga a tinta em uma tela e deixa aquilo formar uma imagem. O Impulso nos permite que venha o que está arredio, escondidao, e essa é a grande capacidade da arte:externar o que não é aceito, o que não pode ser dito.”
No cinema de Lucrecia, as coisas são tão imprevisíveis quanto, mas tem outra construção, e uma delicadeza ímpar. “Para mim, é como observar uma conversa. É algo caótico, que tem significados em gestos, tons, não tem uma ordem certa. Há uma diluição do tempo e das pessoas que conversam. Quando falamos da infância, podemos também estar falando de qualquer coisa a partir da infância.”
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João Gilberto Noll mostrou sem pudores como vê a literatura. Foto: Emilia de Aratanha |
O cinema e a literatura se assemelham em mais um ponto: a capacidade de moldar o tempo. Esse conceito, levado ao extremo pelo diretor russo Andrei Tarkovski, está presente nas obras de Noll e Lucrecia. “Para mim,” comenta a diretora, “a montagem faz o papel da memória. Ela apresenta o tempo como algo subjetivo, tem a capacidade de rasgar o roteiro, atirá-lo no ar e deixar todos os pedaços flutuando.”
Para Noll, o tempo se apresenta mais na percepção dos personagens. “Em meu último livro, o personagem quando está longe de seu muso adota oficialmente o hiato, ele quer inexistir. A passagem do tempo depende da aproximação a outro ser. Todos os meus livros falam sobre um mesmo personagem, que quer se fundir a outro. Ele muda a cada livro, mas é o mesmo em sua essência”.
A forma pode diferir, mas estilos de literatura e cinema aparentemente muito diferentes podem carregar os mesmo conceitos e uma percepção do mundo similar.
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