Cultura

Nem toda Bossa é Nova

por Thomás Levy


Uma conversa sobre a música brasileira com um de seus grandes criadores!


A Book in the Box levou o ONNE até Paraty para cobrir a FLIP

Carlos Lyra engrandece a Bossa Nova ao desmistificá-la
Esse ano marca a comemoração dos cinqüenta anos da Bossa Nova. A Flip não poderia ignorar esse importante marco da cultura brasileira, e para honrá-lo, sem fugir de seu tema, organizou um debate com Lorenzo Mammi, Marcos Nobre e Carlos Lyra, que lançou um livro autobiográfico que nos revela um pouco sobre os bastidores dessa música tão brasileira e tão internacional

Par começar a conversa, Marcos Nobre fez uma pergunta muito pertinente.O que significa Bossa Nova? Para Carlos Lyra, essa foi uma resposta simples. “O rótulo é bom quanto inclui muita gente”, comentou, “mas é preciso saber o que tem de diferenças dentro desse rótulo”. “Eu trouxe quatro ou cinco páginas para ler para vocês, mas... não. Prefiro o improviso.”
 
Vocês já pararam para pensar o que o termo significa?”, indagou. “A palavra bossa é sinônimo de aptidão. Bossa nova, então, é um jeitinho novo de se fazer alguma coisa, nesse caso, um jeitinho novo de fazer música.” Segundo Carlos Lyra, o termo em si foi inventado por um marqueteiro da comunidade hebraica carioca, que em uma tentativa de vender o show bolou esse rótulo.

Ms o que é esse estilo musical que mudou o panorama cultural do Brasil e do mundo? “Tudo começou com uma grande preocupação com a forma. Nós éramos um grupo de jovens que não tinha música própria. Os mais velhos tinham os boleros e as músicas tradicionais, o povo tinha o samba e a música folclórica. Nós gostávamos de Frank Sinatra, Cole Porter, do jazz americano...”

Inspirados nas inovações musicais trazidas por compositores como Maurice Ravel e Claude Debussy, focando melodias bem construídas e letras bem escritas. Cada um dos que estavam lá tinham sua própria batida de violão, mas foi quando João Gilberto chegou com sua criação que se estabeleceu qual seria o default da Bossa Nova, junto com a forma mais suave de se cantar.

Lorenzo Mammi vê valor em todas as fases da Bossa Nova
A Bossa não é um movimento. Não tínhamos um manifesto, aqui foi muito mais um surto cultural de um grupo que não tinha música própria. Era uma música de todo o Brasil, mas que se consolidou no Rio.”

A Bossa Nova celebrada por todos é apenas uma dentre muitas. Segundo Carlos, em 1961, parte do grupo começou a investir em letras mais políticas, como uma forma de questionar a desigualdade social  no Brasil. Esse segundo momento não é lembrado por muitos, e é mal-visto por ter se apresentado de forma muito arrogante. “Mas aí veio 1964, e acabou tudo.” Com o golpe militar, a veia crítica da bossa nova foi silenciada. O próprio Carlos Lyra foi exilado.

E não adianta romantizar. Carlos Lyra nos contou que “era uma música que fizemos para cantar para menininhas mesmo, é um tipo de letra que mulher gosta! Claro, não foi o único motivo, mas foi um deles, e foi um importante!”

A importância do nascimento dessa nova música brasileira não é facilmente calculável. Em todo o mundo, foi a primeira vez que músicas latinas foram vistas como algo fora do “World Music” e do exótico. “Até o jazz a bossa nova mudou”, comenta Lorenzo Mammi, um dos mais renomados críticos e especialistas dessa música. Ainda sim, ele defende ambos os períodos da Bossa: “foi um estilo eu nasceu muito rápido. Músicos como Tom Jobim, Vinícius de Morais e Carlos Lyra seguiram por outros caminhos. A bossa vai de 57 a 60. Não há contradições entre o primeiro e o segundo momento, eles são apenas diferentes.”

Há quem diga que hoje a canção morreu. A inovação está apenas no Rap, um gênero que fala a um grupo órfão de uma música própria e que apresenta uma nova linguagem. Carlos discorda. “A minha canção não morreu. Eu continuo fiel a mim mesmo, e eu falo coisas para pessoas que o Rap não fala. Nós temos recursos para fazer coisas novas e significativas. Se há uma atrofia de uma cultura melódica, é porque as autoridades desprezaram a  educação. Isso nos atrasa!

A canção não morreu, e nós podemos e sempre poderemos renovar nossas opções estéticas e técnicas. Declarar a morte pode ser reflexo derrotista de que não mais usufrui de inspiração.

SERVIÇO

  • A livraria Book in the Box patrocinou o ONNE em Paraty

    Book in the Box
    Rua Bueno Brandão, 66
    Vila Nova Conceição - São Paulo
    Fone: 3842-5118
    Bookinthebox.com.br




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4 COMENTÁRIOS

Mariza Pinheiro/ Natal - RN

Muito boa a matéria. As informações são interesantes e exclarecedoras. Entretanto, ficou faltando a indicação do livro. O comentário atiçou nossa curiosidade. l

Aroldo Barros da Silva

A Bossa Nova foi muito importante para a elite brasileira.

Aroldo Barros da Silva

A bossa nova é um estilo para não se esquecer.

Miguel Juannez

Excelente matéria

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