LifeStyle

Sócio do clube

por Márcio Garcês


Conheça Facundo Guerra o cara do clube Vegas; referência da noite paulista


Facundo Guerra - sócio do clube Vegas em São Paulo - Fotos: Rodrigo Schmidt

" Nunca tive esse sonho de classe média de ter o próprio teto, portanto só recentemente, já um new rich, vim a comprar minha casinha de sapê"


Perdido no meio das 'casas estranhos' da rua Augusta, o Clube Vegas é diversão garantida para quem procura uma balada sem censura,  no melhor sentido da palavra, com um mix de tudo um pouco: gente, estilo, música e DJs.

O cenário é inconfundível, bem característico do seu perfil, com cortinas vermelhas, paredes com néons e duas pistas de dança para o povo se jogar até o sol raiar.

O Vegas é uma referência na noite paulista e  mesmo que a  cena local esteja vivendo um momento de poucas novidades, o clube continua sendo uma das melhores opções; não importa se  você é  vip, hype ou qualquer coisa do gênero e ainda tenha que enfrentar uma fila gigante para entrar.

Por trás de todo esse universo, rodeado de figuras, sons e cores existe uma peça fundamental: Facundo Guerra.

Ele é o sócio, o moço boa pinta e simpático -  e acima de tudo inteligente - que fica atento a tudo e a todos, correndo de um lado para o outro para oferecer uma  noite digna de “Las Vegas” para os freqüentadores da casa. 





ONNE -Você é engenheiro de alimentos, jornalista, atuou em outras profissões, e largou tudo para trabalhar na noite. Como você caiu nessa?


Facundo Guerra - Por absoluta falta de perspectiva. Quando se faz tantas coisas como eu fiz em poucos anos, quando seu espectro abrangência é tão amplo, quando se tem tanto foco quanto uma pessoa com 5 graus de miopia em cada olho, quando os 30 estão batendo à sua porta como estavam quando decidi abrir o Vegas, você começa a pensar em cometer desatinos. Visto pela lente do agora, com o devido distanciamento histórico, vejo que o Vegas foi um ato insensato. Hoje não teria coragem para dar o mesmo passo, seguramente. Fui demitido de meu empreguinho de burocrata anterior, empreguinho que me dava um conforto imenso e me mantinha tão feliz quanto qualquer hamster deve ser. Com o saldo da conta do FGTS me juntei com meu ex-chefe da empresa onde trabalhava e um conhecido de negócios. O Vegas é fruto de um ato de desespero e vazio interior completo, que me assolavam na época, e uns poucos cobres amealhados com anos de trabalho cinza em multinacionais.


ONNE -Quanto tempo você atua na noite?

FG - Três anos. Tinha feito algumas festas antes, que até aglutinavam bastante gente, mas sempre contava com a ajuda de amigos para enchê-las. Lembro-me de que um ano antes de inaugurar o Vegas fiz uma festa onde apareceram 20 pessoas. Não era exatamente um cara popular, se é que você me entende. Antes do Vegas, nunca tinha entrado nem em lista amiga de clube na periferia, o que dirá como VIP nos bons clubes paulistanos. Meu envolvimento com noite era negativo, e basicamente ouvia jazz. Não sabia nada de música eletrônica. Mas aprendo rápido e nos últimos anos meus discos de jazz estão temporariamente encostados. Tenho ouvido música para pistas quase 10 horas por dia e me dedicado em tempo integral ao Vegas.


ONNE- Reza a lenda que você vendeu o seu apartamento para ser sócio do Vegas? Você já recuperou esse dinheiro? Quantos apartamentos já comprou?

FG - Nunca tive esse sonho de classe média de ter o próprio teto, portanto só recentemente, já um new rich, vim a comprar minha casinha de sapê.

"Um intelectualóide e cínico que gosta de pagar de clubber"


ONNE -O que mais te deixa irritado na noite?

FG - Gente bêbada, mal educada, que vem com aquele texto do tipo "você sabe com quem está falando?" E que acha sempre ter a razão a seu lado. Sou abstênio e tenho tanta afinidade com as drogas quanto um straigh edge, mas penso em começar a encher a cara todas as noites pra conseguir aguentar esses tipinhos.


ONNE -A noite em São Paulo está meio “xoxa”. Do seu ponto de vista o que deveria ser feito para mudar esse quadro?

FG-Essa é uma reclamação cíclica, que ouço uma vez por ano. Daí aparece um clube novo, um projeto novo, e pronto, os ânimos se acalmam por mais alguns meses. Eu acho que a noite de São Paulo - e não é apenas a minha opinião, mas de muito gringo - é uma das melhores do mundo. Festas 24 x 7, gringos de ponta praticamente todas as semanas, enfim, acho que a noite paulistana só perde pra noite berlinense, e olhe lá. Não que eu queira vender meu peixe, mas muitos de nós reclamamos de barriga cheia. Noite é um negócio arriscadíssimo, de alto investimento, então não é fácil encontrar empresários dispostos a se arriscar neste campo. A cada ano, no entanto, um projeto entra, mas algum outro terá de sair. Esse "mercado" é ainda um pouco imaturo e público para ele ainda está em formação.


ONNE- Os clubes geralmente tem um tempo de vida para acabar. O que você pretende fazer com o fim do Vegas?

FG - Eu imagino o Vegas com um começo, um meio e um fim, como qualquer boa narrativa. Contamos uma bela história até o momento, mas é hora de pensar em uma estratégia de saída, pra não lutarmos contra a degenerescência e decadência que é inerente a esse negócio. Quem fez o Vegas, minha equipe, meu sócio, as pessoas que trabalham no clube, os DJs residentes, enfim, o núcleo duro do clube, esses continuam juntos. O local, o nome, isso tudo é transitório. Fecharemos a porta do Vegas mesmo com o clube lotado até seu limite, como está neste momento. Um pouco porque somos kamikazes, outro pouco porque somos inquietos e queremos contar histórias novas, que já estão no forno. Então o Vegas está com seus dias contados. Mas isso não quer dizer que a árvore que o produziu não dará frutos ainda mais robustos. Nada como uma boa poda pra deixar uma planta mais viçosa, de acordo? Quando eu resolver sair do ramo de entretenimento, o que espero acontecerá em alguns anos, uma vez que ainda sou um neófito, pretendo me dedicar à minha vida acadêmica, projeto que sempre tive paralelo ao Vegas.

ONNE -O publico da sua casa é um mix de tribos. Como você lida com o assédio das meninas e dos meninos?

FG - Não sinto esse assédio. Talvez um pouco no começo, mas até naquele momento eu achava que não era comigo. E não se trata de falsa modéstia: não sou muito sociável, não tenho muitos amigos, sempre namorei, então acho que minha cara fechada já cria uma barreira. De qualquer forma, não sou nenhum ator de Malhação pra que considerar o assédio como um problema.


ONNE -O hype já era. Qual seria a onda do momento?

FG - Não faço a mais pálida idéia. Gostaria de pensar que cultivar o espírito poderia ser uma nova onda, mas temo tratar-se de uma ilusão.


ONNE - Como você define o seu estilo?

FG - Um intelectualóide e cínico que gosta de pagar de clubber.

ONNE -Um projeto especial?

FG -O Vegas e minha dissertação de mestrado, que pari ao mesmo tempo. Teria sido mais fácil trazer quadrigêmeos ao mundo de parto natural.


ONNE - Um fato marcante que aconteceu durante todo esse tempo trabalhando com a noite?

FG - Os últimos três anos de minha vida estão um pouco turvos em minha cabeça, minha memória me abandonou, estou confuso. Acho que passar parte da sua vida dentro de um lugar que te impacta diariamente com centenas de decibéis deve deixar algum tipo de sequela, não consigo me recordar de nada marcante que tenha acontecido nos últimos três anos.




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1 COMENTÁRIO

renato cezario

Muito interessante a trajetória de Facundo Guerra!

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