Teatro

Ouça bem

por Cesar Giobbi


Beba as palavras de Clarice Niskier, no espetáculo A Alma Imoral


Clarice Niskier, movimentos incríveis com um simples pano preto

Esta noite eu assisti a um espetáculo que vai ficar por muito tempo na minha mente. Chama-se A Alma Imoral, de Clarice Niskier, a teatralização do livro homônimo de Nilton BonderAmir Haddad fez uma supervisão, mas o espetáculo é, essencialmente, de Clarice. E de Bonder, claro.

Clarice entra no palco como Clarice, para contar porque montou o espetáculo. Já é teatro, mas ainda é profano. O sagrado, começa quando ela se despe. Literalmente. E senta-se diante do público com tal naturalidade que a gente esquece, quase imediatamente, que ela está nua. Porque o que ela diz prende mais a atenção. Me lembrou uma peça de Becket que é apenas uma boca que fala num fundo todo negro. Mas foi um segundo, pois não dá para pensar em outra coisa. Ou se segue o texto, ou se perde muito.

Um texto que fala da alma e do corpo
E o que ela diz a gente já sabe, mas adora ouvir. É como se mais alguém soubesse como a gente. E muitas vezes é como se a gente não tivesse notado que já sabia. Se vocês forem assistir ao espetáculo, vão entender o que escrevo.

Seus movimentos em cena, brincando com um vasto pedaço de pano preto, são incríveis. Ela vai construindo sobre o corpo uma espécie de moulage atávico, em que reconhecemos as gregas, as romanas e as palestinas. E, muitas vezes, é bem mais sensual coberta do que descoberta, quando deixa entrever, do que quando mostra. E Clarice sabe disso, e joga com isso.

O texto fala de nós. Todos. Desde sempre. Alinhavando parábolas, fala da alma e do corpo, da tradição e da traição, do certo e do errado, e de quando o certo é errado, e o errado certo. Que o espaço fica sempre pequeno, inclusive o primeiro. Que Satanás pode não ser o que te impele para o perigo, mas o que te segura parado. E a gente vai sorrindo, às vezes rindo, e concordando, agraciados, agradecidos. Em cena, só ela, o pano e uma cadeira preta. Duas luminárias cor de zarcão. No pano de fundo preto, um rasgo, a la Lucio Fontana, com os mesmos significados: o minimalista e o primordial.

E o espetáculo tem um momento muito generoso, que eu espero que as próximas platéias aproveitem bem, que é quando Clarice se senta com um copo d’água na mão, e se dispõe a repetir trechos da peça que o público queira ouvir de novo.

E quando termina, a gente tem a sensação que não viu um espetáculo. Mas que teve uma experiência. É completamente diferente. E bem melhor.



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2 COMENTÁRIOS

helo saddi

cesar,estou louca para ver esta peça,mas vcs não informam aonde está passando.... bjs

tuna

Cesar querido, pela segunda vez assistí "a alma imoral" .tinha visto no Rio e acho que meu DNA já tinha incorporado um elemento a mais, ontem pude comprovar que não saímos os mesmos do teatro.Entramos de um jeito saímos de outro e mais, a comunhão entre as pessoas após o espetáculo comprova sua universalidade e nos aproxima de nossa essencia humana, e de nossas buscar. mas o mistério não tem explicaçãoe e vc sintetizou de modo brilhante especialmente quando fala de Satanás que é o que nos mantém inertes afinal ela diz que a pior solidão é a ausencia de si.ou que pior que a solidão é a ausencia de si. viu porque a gente tem que ver muuuitas vezes? porque uma palavra pode fazer a diferença não é? por isso bebí novamente as palavras do espetáculo graças ao teu cometário.beijos Tuna

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