Europa

Berlin 99

25 Agosto 2 , por Ana Carolina Ralston


- E agora Berlim, que faço com tudo isso?


 - Quase 10 anos depois e você continua deslumbrante.

Ouvir o sussurrar dessa língua pelas ruas. Sentir essa vibração hipnotizante que me acompanha desde menina... Foi como voltar ao colo de uma mãe, que ama e que ensina.

Cheguei em Berlim.

Lá, em uma idade na qual complicamos até mesmo o simples, eu e ela construímos e destruímos todos os ideais sociais e políticos de uma jovem curiosa.

Os muros coloridos estão por todos os lados
Berlim é silenciosa. Parece que estamos dentro de um filme mudo. Todo o barulho fica para trás e você recupera o poder de escutar os pneus deslizando sobre o asfalto, os suspiros, as moedas nos bolsos alheios, a vida que acontece.

É por sensações como estas que a expressão de Berlim se torna completamente visual. Ela nos mostra todo um colorido e nos convida a nos disfarçar do que quisermos para viver um de nossos inúmeros personagens. E nada nem ninguém se sente no direito de nos lançar um olhar reprovador. Afinal, cada um é cada um e tudo é válido.

Antes da queda do muro, poucas pessoas se atreviam a continuar na parte ocidental da cidade já que esta era como uma ilha em meio ao comunismo. Os alemães migravam para outras regiões do país e a capital, que também era um ponto estratégico para os capitalistas, se encontrou ameaçada pela falta de população.

Grafite do artista Blu, atualmente com uma obra no TATE Galery, Londres

Então, a Alemanha resolveu dar grandes incentivos para quem quisesse viver ali, um incentivo que se transformou em vida fácil e um grande laboratório para artistas de todas as áreas. O governo os sustentava e toda essa massa criativa se dedicava quase exclusivamente a aperfeiçoar seus dons. Não é a toa que, atualmente, Berlim é considerada a principal capital cultural da Europa.

Até hoje, as diferenças entre o que um dia foi Berlim ocidental e oriental são muito claras. A parte oriental possui inúmeros prédios onde se nota a chamada "arquitetura comunista", com grandes áreas comuns, onde os moradores desfrutavam de partes amplas que eram compartilhadas entre a comunidade.

Hoje, esses prédios mais antigos e mais degradados possuem um preço mais acessível aos jovens que iniciam a vida independente.

Por toda Berlim, reina uma vida completamente urbana e, com isso, não poderiam faltar os grafites. Grupos de todas as partes do mundo já fizeram sua história entre as paredes coloridas da capital alemã, feita para todos os olhos, distribuídos por cada canto das ruas que saltam aos nossos sentidos.

Entre os nomes e nomes pichados nas paredes, muitos desenhos contam como viveram os que participaram da dura história da cidade.


Torre de comunicação - Berlim oriental

Acho que o povo alemão é um povo consciente. Consciente das fraquezas humanas. E, sem dúvida, uma delas é o esquecimento. O ser humano é esquecido por natureza. Depois de algum tempo, nos esquecemos do mal que causamos, do que fizemos e do que não fizemos. Esquecemos e voltamos a repetir os mesmos erros e a causar novamente as mesmas dores. Um cachorro que corre atrás do rabo e não percebe que gira sem sair do lugar.

Em nenhum lugar da cidade, os alemães deixaram de lembrar todo o rastro cruel que o nazismo deixou. Em cada canto, uma homenagem e as eternas desculpas aos judeus, homossexuais, ciganos e a todas as outras minorias cruelmente assassinadas naqueles tempos. Claro, o perdão não traz de volta as vidas que tantos perderam e os traumas que carregam os que por algum motivo conseguiram escapar.

Mas, reconhecer e tentar mudar uma atitude são os primeiros passos para o renascimento de uma raça, crença e de cada pessoa. E isso também merece reconhecimento. O povo alemão possui uma responsabilidade com o passado que não deixa a barbaridade ser esquecida pelo seu povo. Ela não pode ser esquecida como tantas outras insanidades feitas por nós, ela precisa ser lembrada para que nunca e em tempo algum algo assim possa voltar a acontecer.

Pergunto-me quando será que vamos começar a nos desculpar por todo o preconceito, mortes e humilhação que fizemos passar os negros e os índios. Ou quando será que a China finalmente contará ao mundo toda a repressão que passa seu povo nos dias de hoje. Reconhecer é difícil e acredito que ter a coragem para confessar de peito aberto ao mundo que erramos é um mérito de poucos.


Fechei os olhos, nevava. No quarto só brilhava aquela luminária colorida, presente de um amigo.

- E agora Berlim, que faço com tudo isso?

- Conta para eles. É o feitiço que vai com você. Aqui estão as armas para você virar o espelho de tudo que quiser.


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