Esportes
Homem-gol
23 Novembro , por Marcos Caetano
"Umbabarauma..."
“Umbabarauma, homem-gol/Joga bola, joga bola, jogador/Joga bola, joga bola, corócondô/Pula, cai, levanta, mete, gol, falta, cabeceia, chuta e agradece/Olha que a cidade toda ficou vazia nessa tarde de domingo só para lhe ver jogar”. A música sincopada do talentoso Jorge Benjor celebra a paixão dos torcedores por um exótico centroavante africano, chamado Umbabarauma, que, segundo a lenda, não se cansava de fazer gols. Aqui ou na África, é indiscutível o fascínio exercido pelo centroavante. Também pudera: é dos pés e da cabeça do camisa 9 que surge boa parte dos gols que dão alegria ao futebol.
Artistas de uma geração posterior a Benjor, o pessoal do Skank não discorda do mestre: “O meio campo é o lugar dos craques/Que vão levando o time todo pro ataque/O centroavante, o mais importante/Que emocionante é uma partida de futebol”. O centroavante é o mais importante, isso é um lugar-comum, ao menos para o torcedor. E na última quarta-feira tivemos evidências de que o músico carioca e a banda mineira parecem ter razão. Foi um centroavante, com o auxílio luxuoso de um grande goleiro, que pôs fim ao nosso jejum de oito anos diante o Uruguai. Luis Fabiano decidiu o clássico sul-americano com gols de centroavante de verdade. Gols de Umbabarauma.
Dunga, como todo treinador em início de carreira – e em meio ou final de carreira também, pois todos são humanos – vem mesclando acertos e erros no comando da Seleção Brasileira. Muita gente discordará de mim, mas acho que mais acertos do que erros. O cartel de resultados do gaúcho é indiscutivelmente bom, conquistamos a Copa América e, apesar do sufoco, estamos invictos nas Eliminatórias. Também achei audaciosa a decisão de sacar Ronaldinho, que não fazia nada no Morumbi, para recompor o meio de campo com Josué. Foi uma decisão que exigiu coragem, pois sacar um craque para colocar um carregador de piano com o time precisando marcar é algo que enfurece a torcida. E enfureceu mesmo: choveram vaias para o treinador. Mas que o time melhorou, melhorou sim.
Dunga acerta e erra – e de todos os seus erros, o mais e inexplicável era a insistência com Wágner Love no comando do ataque. Love é um bom atacante e demonstrou grande caráter ao comemorar com entusiasmo de menino o segundo gol do Brasil, que consagrou seu rival de posição. Mas não é um Umbabarauma, coisa que Luis Fabiano é. Com os últimos suspiros da carreira de Romário, os altos e baixos da forma física de Ronaldo e a queda do Imperador Adriano, o Brasil sentia falta de um autêntico homem-gol. Luis Fabiano provou que pode ocupar esse espaço. Sua sede de marcar é a do poeta que quer beber o mar.
Os gols do atual artilheiro do Campeonato Espanhol refletiram a quintessência do caráter de um centroavante. Gols de quem acredita sempre, como no chute sem ângulo, por entre as pernas do goleiro Uruguaio, depois de um lance perdido. Gols de quem não tem medo de chutar, como no ricocheteio que decidiu a partida, estufando as redes com uma bola que veio espirrada. Uma bola dessas seria dominada e ajeitada, antes de ser empurrada para as redes, por nove entre dez atacantes – ainda mais num jogo importante e com o estádio vaiando o time. O temor de uma furada patética levaria quase todos os atacantes a pentear a bola veloz, antes de chutá-la.
Mas não Luis Fabiano. Ele não é apenas um atacante. É Umbabarauma – e merece ser o camisa 9 da Seleção Brasileira. Chuta e agradece, Luis Fabiano. A cidade vai sempre ficar vazia só para te ver jogar.
ÚLTIMAS COLUNAS
Iniciativa solidária
Doda doa colar e par de brincos para a Associação Paulista de Apoio à Família
Leia mais









