Esportes
Concentração de renda
09 Novembro , por Marcos Caetano
Michel Platini quer que os clubes menores recebam mais dinheiro
Londres – Um assunto que vem dominando os debates nos programas esportivos da Europa é a concentração de renda nos integrantes do chamado G-14, agremiação que reúne as 18 equipes mais poderosas da UEFA. Como o seu primo pobre do Brasil, o Clube dos 13, o G-14 também acabou ampliando seu número de associados para além dos 14 membros originais. São eles: Barcelona, Real Madrid, Valência, Arsenal, Liverpool, Manchester United, Internazionale, Juventus, Milan, Lyon, Olympique de Marselha, Paris Saint-Germain, Porto, Bayer Leverkusen, Bayern Munique, Borussia Dortmund, Ajax e PSV.
Todos são clubes ricos, que ficam cada vez mais ricos, enquanto agremiações outrora poderosas, como o bicampeão da Champions League, Nottingham Forest, disputa hoje a terceira divisão inglesa e parece condenado ao ostracismo. O ex-craque e atual presidente da UEFA, Michel Platini, iniciou uma cruzada para salvar os clubes menores – e isso quer dizer menos dinheiro e poder para os integrantes do G-14. “É guerra!” – reagiu o porta-voz do G-14, ao tomar conhecimento da intenção da UEFA de mudar o formato de disputa da segunda fase da Champions League, com o objetivo de destinar menos recursos aos clubes mais ricos. Com o novo formato, os times que disputam a Champions fariam menos quatro partidas, o que representa muito dinheiro se levarmos em conta os estratosféricos preços dos direitos de transmissão. Esse assunto, aliás, vem causando enorme atrito entre os membros do G-14 e as redes de televisão européias.
Michel Platini quer que os clubes menores recebam mais dinheiro, os canais de TV querem pagar menos aos grandes, os menores pressionam por maior participação nos direitos de transmissão e exposição internacional, o G-14 quer que as seleções paguem aos clubes quando convocam seus jogadores e tudo isso junto começa a ganhar contornos de uma grande crise. O porta-voz do G-14 chegou a insinuar que seus 18 associados poderiam ensaiar um movimento em direção a uma competição independente. Tudo jogo de cena. A FIFA – e por conseqüência a UEFA – é uma organização poderosa, e ainda não há clube ou grupo de clubes em todo o mundo com poder suficiente para enfrentá-la. Como é um sujeito de juízo, Thomas Kurt, executivo-chefe do G-14, acabou aceitando as mudanças no formato, mas seu sonho é transformar a agremiação numa espécie de NBA, que organiza seu próprio campeonato.
Para defender a influência do G-14, há quem defenda aumentar para 50 o número de membros do seleto clube, que, dessa forma, deixaria de ser tão seleto assim. O diretor-executivo do Chelsea, Peter Kanyon, já avisou que recusará um eventual convite. Ele acredita que os clubes europeus estariam melhores servidos se fossem representados por uma instituição independente, que representasse os clubes junto à UEFA. Ao que tudo indica, a guerra está apenas começando. A política é o que está por trás de todos esses movimentos. Clubes ricos que querem ser mais ricos, clubes pobres que querem se tornar ricos, dirigentes puxando a brasa para a sardinha dos seus clubes e cartolas da UEFA que precisam do apoio da arraia-miúda dos clubes.
A política dá o tom do jogo, mas é a economia que definirá os ganhadores, no longo prazo. Como o futebol se tornou um negócio – fato que ninguém mais discute –, ele é regido agora pelas leis econômicas. E uma das leis mais presentes no mundo dos negócios é a da concentração de renda. As maiores empresas estão cada vez mais ricas e poderosas. Assim, apesar do esforço momentâneo da UEFA, os clubes mais ricos tenderão a ganhar mais títulos, angariar mais fãs e ficar cada vez mais ricos, independentes e poderosos. Não será diferente no Brasil.









