Esportes

Mercadoria e paixão

05 Novembro , por Marcos Caetano


Os dois lados do futebol


Paris – Retorno ao Parc des Princes, onde estive pela última vez na goleada do Brasil sobre o Chile, com atuação memorável de Ronaldo, pelas oitavas-de-final da Copa de 1998. O jogo que vejo é muito diferente: Paris Saint-Germain 2 x 0 Montpellier, também por oitavas-de-final, só que da modesta Copa da Liga francesa. Estádio lindo, jogo pavoroso. Basta dizer que o craque e capitão do PSG é o português Pauleta – bom jogador, mas sem metade do talento de outros jogadores que vestiram a camisa do time parisiense. Cito Raí, Ricardo Gomes e Ronaldinho Gaúcho, para ficar apenas nos brasileiros. O futebol francês é um tédio, e chega a ser assombroso que eles tenham nos superado nos três últimos jogos válidos por copas do mundo.


 
Na arquibancada, uma faixa com os dizeres: “Le football n’est pas une merchandise”. O futebol não é uma mercadoria, proclamam os torcedores do PSG. Infelizmente, eles estão errados. Ou parcialmente errados. O futebol é hoje um grande negócio, que movimenta bilhões de dólares. E não há nada de alarmante nisso. A música clássica, as artes plásticas, o teatro, o balé, a literatura, o cinema e outras nobres atividades humanas também movimentam recursos consideráveis em todo o mundo. O fato de uma atividade se tornar um negócio não é pecado. Pecado é quando essa atividade é administrada por gente inescrupulosa, caso de boa parte do negócio chamado futebol.


 
Na França, como em todo mundo, o assunto esportivo da semana foi a escolha do Brasil como país-sede da Copa de 2014. Por conta dos maus administradores do futebol brasileiro, muitos formadores de opinião não gostariam de ver o nosso país receber uma Copa do Mundo. Respeito a opinião deles, embora discordando frontalmente. Eu realmente acredito que, para o Brasil e para os brasileiros, a Copa de 2014 será algo extraordinário. Se os dirigentes do nosso futebol não são honestos, que eles sejam investigados, processados e substituídos. Que eles saiam de cena – e não a Copa. A nossa Copa.


 
Não é razoável que, por conta de alguns dirigentes inescrupulosos, achemos bom que Copa seja realizada em outro país. Mesmo porque esses dirigentes inescrupulosos sempre darão um jeito de faturar, aqui ou no exterior. Chega a ser difícil imaginar o bem que um acontecimento tão grandioso faria para a auto-estima de um povo cujos principais traços de união são a língua, a cultura e o futebol. Há quem diga que não temos infra-estrutura para abrigar um evento tão expressivo. Não posso acreditar que o México, anfitrião de duas copas inesquecíveis, tenha mais condições do que nós de proporcionar um bom espetáculo. E o mesmo pode ser dito em relação à África do Sul.


 
O investimento é grande e sei que o país tem outras prioridades. Mas alguém já fez a conta de quanto a nossa economia pode se aquecer por conta desse acontecimento mundial? Não conseguiremos erguer estádios futurísticos, como fizeram Coréia e Japão, nem entregar um evento com organização impecável como o da Copa da Alemanha. Entretanto, poderemos fazer a mais alegre copa de que já se teve notícia. Tudo isso fora o fato de já estarmos garantidos na festa, sem necessidade de passar pela eliminatória. E fora o favoritismo de jogar em casa. E fora a expectativa de conquistarmos mais um título e exorcizarmos nossos fantasmas de 1950.


 
É muita coisa boa para ser jogada fora só por causa de um punhado de cartolas. Futebol é negócio, sim. Mas também é paixão. E é com imensa paixão que eu confesso ter ficado muito feliz com a escolha do Brasil como o lar da Copa de 2014.


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