Esportes
O regionalismo pesa
29 Setembro , por Marcos Caetano
Os times estão se tornando menos importantes que as regiões?
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Pode ser que a opinião que expressarei a seguir esteja equivocada ou contaminada pelo fluxo da minha caixa postal na última semana, mas eu começo a achar que as torcidas rivais vêm se aproximando. Quer dizer então que o corintiano está mais próximo do palmeirense, que o vascaíno começa a compreender o rubro-negro e que o colorado inicia timidamente a simpatizar com o gremista? Não creio que seja bem isso.
É evidente que os torcedores adversários de uma mesma cidade continuarão a se odiar por muitos e muitos anos, para não falar em séculos. Mas experimente fazer um comentário considerado depreciativo em relação a determinada cidade ou estado para você ver o que é bom para tosse – e para descobrir alianças que pareciam impossíveis.
Na última semana eu decidi manifestar minha opinião – na verdade, um palpite, como deixei claro – sobre o possível campeão brasileiro de 2008, que para mim será o Palmeiras. O comentário foi absolutamente desprovido de qualquer paixão, até porque oito em dez cronistas esportivos que se atreveram a arriscar um prognóstico, nos últimos dias, fizeram a mesma escolha. Minha opinião foi também desarmada de bairrismo, se é que tal pecado possa estar ao alcance de alguém que nasceu no Rio, morou em Buenos Aires, reside em São Paulo e é casado com uma paulistana. Pois essa versatilidade geográfica de nada me serviu. Meu correio eletrônico foi inundado por e-mails de gaúchos, indignados com a minha evidente implicância com a gente dos pampas e com minha patética subserviência ao ideário paulista.
As mensagens mais amigáveis apontavam-me como um despeitado perseguidor dos clubes do Sul do Brasil. As mais acaloradas continham ameaças – retóricas, espero – caso eu me atrevesse a cruzar o Paralelo 30º, como diz a letra de Kleiton e Kledir, para visitar Porto Alegre.
Se as manifestações tivessem vindo apenas de torcedores gremistas, não teriam rendido assunto para a coluna de hoje. Discutir futebol é como debater religião ou política. O cronista falou bem do meu clube, é bestial. Falou mal, é uma besta. Essa é uma lei da vida, e quem trabalha com o velho esporte bretão precisa aceitá-la. O que me surpreendeu e fez com que eu escrevesse esta coluna foi a grande quantidade de mensagens de torcedores do Internacional. E também de outros clubes do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina.
Quando colorados saem em defesa de gremistas é porque algo está mudando no panorama do futebol nacional. Um craque da antropologia e do esporte, como Roberto DaMatta, poderia desenvolver cem teses sobre o tema. Eu tenho apenas uma: acredito que o modelo de campeonato por pontos corridos, que leva a uma concentração dos títulos nas mãos de uns poucos clubes, está mexendo com a nossa geopolítica futebolística.
Entre os anos 70 e 90, os clubes brasileiros distribuíam razoavelmente os títulos entre si. Não só os clubes, mas também as regiões. Foi nesse período que o Inter conquistou seus três títulos brasileiros e o Grêmio os seus dois. De 2002 para cá, no entanto, tivemos um título do Cruzeiro, um do Corinthians, dois do Santos e dois do São Paulo.
Cinco dos últimos seis campeonatos brasileiros foram parar em São Paulo. Isso fez com que os colorados, que antes ficavam furiosos com um título do Grêmio, hoje sejam capazes de escrever para mim, tomando as dores do rival – ou até sofrer um pouco menos com uma conquista inimiga. “Ao menos a taça voltou para o Sul”, diriam alguns. Será que no Rio de Janeiro esse sentimento também vem ganhando terreno? Aguardo, ansioso, as mensagens desta semana.










