Esportes

Brasil vence, Dunga empata

19 Outubro , por Luiz Giaconi


Uma análise...


Numa coisa torcedores e cronistas esportivos parecem concordar sempre: se a Seleção Brasileira jogou bem, foi porque temos os melhores jogadores do mundo e um estilo alegre e inconfundível, se jogou mal, a culpa foi do técnico, que convocou errado, escalou torto e podou a criatividade dos nossos craques insuperáveis. Pode ser que eu esteja enganado, mas, desde a última quarta-feira, todos parecem estar convencidos de que nas primeiras rodadas das Eliminatórias Sul-Americanas o técnico Dunga empatou com a Colômbia, enquanto nossos craques golearam o Equador.

 

A máxima “técnico não ganha jogo, mas perde” é uma realidade quando o assunto é a pátria em chuteiras. É como se os jogadores representassem a essência da alma do brasileiro e o técnico a elite, o poder. Dessa forma, os jogadores nunca podem estar errados, mas o treinador está sempre. Não tenho procuração para defender o Dunga, mesmo porque ainda estou longe de vibrar com o trabalho que ele vem desenvolvendo, mas daí a ver nele a raiz de todos os males da nosso escrete vai um grande exagero.

 

Acho que o melhor exemplo do que acabo de dizer foi o segundo tempo do jogo contra o Equador, no Maracanã. Até os 25 minutos, o time estava apagado, era vaiado e aceitava placidamente a marcação dos rivais. Culpa de quem? Do Dunga, ora. Ele é retranqueiro e não privilegia a criatividade – disseram. Pois bem. Veio o segundo gol, o time se soltou, deu espetáculo e brindou a maravilhosa torcida presente ao Maracanã com 20 minutos da mais pura magia. Futebol brasileiro concentrado, na veia. Mérito do Dunga? Claro que não! Mérito de Ronaldinho, Robinho e Kaká, evidentemente. O Dunga teve tudo a ver com o que aconteceu nos primeiros 70 minutos de jogo, mas nada a ver com o que houve nos últimos 20. Todo esse maniqueísmo, preciso confessar, me preocupa um pouco.

 

Insisto que não estou livrando a cara de Dunga dos erros que, de fato, comete. Por exemplo: não acho que o Wágner Love precisaria ser essa única e insistente opção para o comando do nosso ataque. O favorito de Dunga estava há muito tempo sem marcar, mas, até quando marcou, o fez de forma meio desengonçada, caindo para trás, numa bola cruzada que um Romário escoraria para o fundo das redes como se estivesse caminhando no parque. Qual o preconceito em relação aos atacantes que atuam no Brasil? Não sei. Também acho que Dunga não deveria exigir tanta marcação de seus jogadores mais criativos, especialmente contra adversários com baixíssimo poder ofensivo. Dunga, sobretudo, precisa aprender muito sobre como lidar com as críticas, com a imprensa e com a pressão inerente ao segundo cargo mais comentado do país, atrás apenas do de presidente da República.

 

Dunga tem muito que aprender, não resta dúvida. Podemos até ser contra a indicação de um técnico sem experiência para comandar o time para o qual todos os países do mundo torcem quando suas seleções não estão em campo. Eu, por exemplo, sou contra. Mas, uma vez que a opção por Dunga se tornou um fato consumado, deveríamos analisar seu trabalho com pragmatismo. Se Ronaldinho está apático ou Robinho está driblando sem objetividade, a culpa não é necessariamente do treinador. Da mesma forma, quando nosso time mata a Argentina de contra-ataque e conquista a Copa América, ou aplica uma goleada-relâmpago no Equador, umas migalhas de mérito bem que poderiam cair no colo do treinador. Equilíbrio, um dos conceitos mais importantes da vida: algo que não se pode exigir dos torcedores – mas que deveria ser mercadoria mais corrente entre a crítica especializada.

 

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