Esportes
Ouro que vale ouro
25 Agosto 2 , por Marcos Caetano
Todas as medalhas são vitórias, mas só as de ouro valem ouro
![]() |
A única medalha que realmente vale ouro |
Nesta sexta, a extraordinária Maurren Higa Maggi superou todos os desafios que atravessaram o seu caminho para, como César Cielo Filho, conquistar a única medalha de ouro que vale ouro de verdade. Nos Jogos Olímpicos em que todo bronze conquistado por um brasileiro “valeu ouro” e nos quais toda participação, independente do resultado, “já foi uma vitória”, Maurren e César mostraram que ouro mesmo, para valer, é o que eles penduraram no peito.
Ao afirmar isso, não pretendo desvalorizar as medalhas conquistadas por outros atletas da nossa delegação. Muito pelo contrário: dizer que todo bronze ou prata equivalem a ouro é que seria desmerecer a conquista gigantesca dos nossos dois heróis.
Os Jogos de Pequim se encerrarão com uma contabilidade agridoce para o Brasil. Medalhas nas modalidades em que somos tradicionalmente fortes, algumas surpresas agradáveis, mas certamente muito mais decepções do que alegrias. Na semana passada, escrevi aqui que não agüentava mais aqueles comentários condescendentes, do tipo “coitadinhos, eles tiveram infância pobre, nosso país tem graves problemas sociais, nossa experiência olímpica é pequena”.
Será que os problemas sociais da Etiópia são menores do que os nossos? Será que a atleta norte-coreana que estreou nos Jogos aos 16 anos e ganhou o ouro na trave tinha menos experiência do que Jade Barbosa? Shelly-Ann Fraser, vencedora e nova recordista dos 100 metros rasos feminino, jamais havia competido fora da Jamaica. Mas nem por um segundo ela deixou que a inexperiência fosse algo capaz de apequenar sua vontade. O mesmo pode ser dito do fenômeno Usain Bolt, que ganhou três medalhas de ouro e quebrou três recordes mundiais, mesmo tendo disputado apenas uma dezena de provas na distância de 100 metros.
O que diferencia um grande campeão de um atleta comum não é a origem, humilde ou não, mas a atitude. Os grandes campeões se sentem igualmente honrados em disputar os Jogos Olímpicos, mas o trabalho deles não termina com a classificação. Eles querem o ouro. Comem, bebem e dormem o ouro. Têm convicção de que ganharão o ouro. Enquanto a simpática Jade chorou logo no desembarque, ao se deparar com o aeroporto cheio de gente, César Cielo prometeu o ouro para os 50 metros nado livre e Maurren Maggi garantiu estar na melhor forma de sua carreira e avisou que saltaria acima de 7 metros. Jade continuou chorando, enquanto Cielo quebrou o recorde olímpico e Maurren saltou 7,04m. Ouro para ambos. Decepção e mais lágrimas para Jade.
A verdade é que para melhorar nosso desempenho olímpico, em vez de nos gabar por ter levado “a maior delegação da história do nosso esporte”, deveríamos levar apenas dois tipos de atletas: os que têm índices capazes de deixá-los entre os vinte melhores do mundo ou jovens de até 20 anos, com marcas que indiquem potencial para se tornarem futuros medalhistas.
Os do primeiro grupo iriam para ganhar medalhas, os do segundo grupo para ganhar experiência. Ana Marcela Cunha, de apenas 16 anos, quinta colocada na maratona aquática, é o perfeito exemplo de um bom investimento. Essa coisa de dar experiência olímpica para veteranos que jamais conseguiram marcas expressivas é jogar dinheiro fora. Dinheiro que deveria ser usado para desenvolver os talentos do futuro ou qualquer coisa socialmente mais justa do que promover o turismo de atletas. A mera participação nos Jogos não pode continuar sendo o sonho final dos atletas, mas um degrau rumo a ambições maiores.
Dito isso, meus sinceros parabéns aos brasileiros que foram a Pequim pensando em ganhar – e não na infância difícil, na desigualdade social do Brasil, nas nossas limitações esportivas ou se sentindo ganhadores apenas por terem participado dos Jogos Olímpicos.










