Esportes

“Tadinhos...”

18 Agosto 2 , por Marcos Caetano


O que justifica?


Na coluna desta semana eu pretendo fazer uma análise sobre a maneira como a imprensa, sobretudo da TV aberta, vem tratando o desempenho pouco destacado dos atletas brasileiros em Pequim. Preciso confessar que estou um tanto cansado de frases como esta: “Temos que considerar que ele teve uma infância pobre” – como se a infância dos atletas chineses ou quenianos tenha sido particularmente abastada. Ou esta: “Gente, a trave é muito difícil! Tem só dez centímetros de largura!” – como se não tivesse a mesma largura para as demais atletas. Ou ainda como esta: “Participar da final da natação, mesmo com o oitavo tempo, já vale ouro” – mesmo que as marcas anteriores do atleta em questão tenham sido bem melhores do que a da hora da verdade.

O limite entre o patriotismo e a patriotada é muito tênue. Da mesma forma, a análise respeitosa muitas vezes perde da condescendência exagerada por uma batida de mão. Sendo assim, é importante separar o joio do trigo. Dizer que o bronze da judoca Ketleyn Quadros foi um triunfo é acertado, uma vez que seu currículo prévio não trazia conquistas de semelhante envergadura. Por outro lado, é errado, sim, dizer que o oitavo lugar por equipes da ginástica artística feminina ou o 10º lugar individual por aparelhos de Jade Barbosa foram resultados extraordinários. Ao contrário de Ketleyn, Jade e as atletas da ginástica já haviam conquistado várias medalhas em campeonatos mundiais. No último deles, ficamos em 5º lugar por equipes. Sendo assim, o 8º lugar da final foi mesmo um mau resultado – ainda mais se considerarmos que três dias antes, na fase de classificação, havíamos terminado na 7ª posição.

Não sei se o amigo leitor enxerga do mesmo jeito essa questão, mas eu ando um pouco cansado de ouvir comentários do tipo: “Erro grave da russa! Ela será penalizada e perderá muitos pontos”. Para, em seguida, quando uma brasileira comete a mesma falha, ouvir isto: “Tadinha... Sofreu um pequeno desequilíbrio, mas nem sempre os jurados são tão rigorosos com falhas assim”. Para o bem ou para o mal, o Brasil já é um país forte em algumas modalidades, como futebol, vôlei, basquete, ginástica artística, handebol, judô e iatismo. Não que sejamos potências desses esportes, mas conseguimos encarar as potências, como a equipe de handebol feminino mostrou diante da favorita Coréia.

Enquanto esse famigerado “tadinho” não desaparecer da análise dos nossos especialistas; enquanto as nossas mulheres continuarem sendo condescendentemente chamadas de “meninas”; enquanto uma derrota para um competidor mais fraco não for tratada como uma derrota de verdade; enquanto um atleta que piore suas marcas prévias na hora da verdade não for tratado como alguém que decepcionou; e enquanto um bronze não valer nada mais do que um bronze, continuaremos atrás de países como Azerbaijão, Etiópia, Zimbábue, Quirguistão e Vietnã no quadro de medalhas. Já estamos crescidinhos. Esse complexo de vira-latas já deveria ter sido enterrado.

Se quiserem exemplos vivos do que acabo de comentar, pensem em César Cielo e Jade Barbosa, dois ícones da nossa delegação. A ginasta já chorou logo no desembarque, ao se deparar com o aeroporto cheio de gente – e também chorou após cada erro cometido. Resultado: na final por aparelhos, caiu duas vezes, justamente nos dois aparelhos que domina. César Cielo só chorou uma vez, quando ganhou a medalha de bronze. Perguntado sobre o resultado, em vez de dizer que aquele bronze valia ouro e se dar por satisfeito, atacou: “Vou ganhar os 50m”. Esse é o espírito de um atleta de ponta! Pode ser que César perca os 50m livres e que Jade conquiste uma medalha no solo. Enquanto isso, o fato é que César, no dia seguinte ao da declaração, quebrou o recorde olímpico.

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