Esportes
Caráter
30 Maio 200 , por Marcos Caetano
É isso que basta!
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Não que eles sejam desertos de técnica e tática, pelo contrário, mas nada foi mais importante para a trajetória de Sport, Corinthians e Fluminense na atual temporada do que o caráter. Os dois primeiros vão decidir a Copa do Brasil e um deles disputará a Libertadores no ano que vem. Libertadores que, este ano, pode ser conquistada de forma inédita pelo Fluminense.
A mesma convicção que sobrou aos três clubes, faltou a Vasco e Botafogo, que vêm decepcionando suas torcidas. E aqui peço licença para discordar do meu colega boleiro, Nando Reis, que, de cabeça inchada pela eliminação do seu São Paulo pelo meu Fluminense (sim, todo boleiro que se preze torce por um time, razão pela qual passou a amar o futebol e, consequentemente, a escrever sobre ele), criticou os foguetório com o qual os torcedores rivais comemoraram a vitória épica do Flu, na semana passada.
Respeito muito a opinião do Nando, mas, para mim, o futebol é divertido, entre outras coisas, justamente pelo sagrado direito que temos de gozar o colega da mesa ao lado quando o nosso time vai bem e – por que não? – quando o time dele vai mal.
Tenho certeza de que se a Ponte tivesse vencido o Palmeiras na final do Paulistão, o foguetório dos rivais teria sido igual. Da mesma forma, se o Corinthians perder a final da Copa do Brasil, torcedores de outros clubes – sãopaulinos, inclusive – explodirão seus rojões.
Foi exatamente assim, aliás, quando o Timão caiu para a segundona. Futebol, acima de tudo, é entretenimento popular. E, assim sendo, não precisa ser levado a ferro e fogo. Em temas como política e religião, fazer troça das escolhas alheias é deselegante e desrespeitoso.
No esporte, felizmente, não. Aliás, se os torcedores encarassem o futebol com mais alegria e menos como assunto de vida ou morte, honra e humilhação, não haveria tanta violência ao redor dele.
Fiz toda essa digressão para exemplificar, através de uma típica gozação de torcedor, o que vem faltando a Vasco e Botafogo. Um amigo rubro-negro, logo após a definição dos finalistas da Copa do Brasil, se apressou em me enviar um e-mail: “A CBF ficou aliviada com a classificação de Sport e Corinthians.
Já pensou se Vasco e Botafogo fossem decidir o título? Seria uma confusão danada a competição acabar com dois vices”. Pois é. Comentários assim incomodam mais até do que o foguetório, mas é essa picardia que construiu a mística dessa delícia chamada futebol.
Por trás da brincadeira, uma dura realidade: Vasco e Botafogo, nos últimos tempos, vêm ficando pelo caminho nas competições. O Vasco por questões de gestão e seus conseqüentes impactos financeiros, o Botafogo pela dificuldade de repetir nas partidas decisivas a qualidade com a qual constrói boas campanhas.
Caráter: eis o que teve o Corinthians quando avançou com um time cheio de desfalques, na última quarta-feira. Caráter: é o que caracteriza o Sport, que transformou seu estádio num alçapão onde consegue fazer saldo para os jogos fora de casa. Caráter: foi o que sobrou ao Fluminense diante da pressão do todo-poderoso Boca em Avellaneda. Os três precisarão de novas doses da mesma receita se não quiserem morrer na praia. Soberba é veneno.
Os clubes que ficaram pelo caminho deveriam refletir sobre essas mesmas questões. Ainda que a chiadeira, como a gozação, faça parte do show.
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