Esportes

O craque e as armadilhas

05 Maio 200 , por Marcos Caetano


Mais uma queda. desta vez será a última?


O ídolo que cai
A dificuldade da “primeira morte”. Eis um dos fatores que mais contribuem para o padecimento de um craque de futebol. Segundo Zico, ao contrário das pessoas normais, um jogador morre duas vezes. A segunda, como todo mundo, quando órgãos vitais deixam de funcionar e a vida se extingue.

A primeira, quando ele pendura as chuteiras. Não é nada fácil para uma pessoa que passou a vida correndo nos gramados, alguém cuja existência só pode ser explicada sob a perspectiva do futebol, perceber que sua primeira vida acabará em breve. Logo ali, quando aos trinta e tantos anos de idade, quarenta no máximo.

A constatação de que o dinheiro não é tudo. Outro dos males que afligem os craques, que foram ensinados a usar o seu enorme talento para conquistar a única coisa capaz de abrir todas as portas. Nem o dinheiro nem qualquer outra coisa no mundo têm o poder de responder a todas as questões, de solucionar todos os problemas.

Um jogador que ainda menino se enche de dinheiro, mas percebe que mesmo com tudo o que ganhou seus problemas continuam à espreita quando deita a cabeça no travesseiro, se sente frustrado. E aí um relacionamento que termina, uma contusão, um título perdido, tudo isso pode empurrar um craque para os abismos da própria consciência.

A constatação de que a fama não é tudo. Grave questão. Mesmo fora do futebol, sobram exemplos de gente capaz de captar todas as atenções, todos os flashes, sem, no entanto, encontrar a felicidade nisso. No início, tudo é festa.

A primeira vez que seu nome sai estampado no jornal, a primeira foto, a reportagem exclusiva, a cobertura da televisão nas grandes conquistas, os autógrafos... Mas tudo o que é doce no início, enjoa com doses fartas e contínuas. A fama cansa – e nem por isso deixa de gerar dependência. Sobram manchetes, falta sabedoria. Essa sim, uma conquista que não fica amarelada com o tempo.

Aproveitadores. Pobre craque, cercado por tanta gente que jura lhe querer bem, mas no fundo (ou no raso mesmo) só pensa em lucrar com ele. Dirigentes que forçam jovens a assinar contratos desvantajosos. Mulheres lindas que namoram jogadores nem tanto apenas para aumentar sua visibilidade e, conseqüentemente, seu cachê nas passarelas.

Amigos de infância, igualmente despreparados para a vida, que se transformam em sanguessugas financeiras e emocionais, voluntárias ou não. Novos amigos, surgidos depois da fama, que querem ser boas-vidas, a custa da má vida dos outros. Parentes picaretas, que não perdem a chance de disputar com amigos de infância e novos amigos as migalhas de uma carreira de sucesso costuma deixar pelo caminho. A lista é longa. E triste.

Nos parágrafos acima estão listadas as armadilhas mais comuns na vida de um craque. Ronaldo Luis Nazário de Lima, ao longo de sua carreira fulgurante, caiu, aqui e ali, em todas elas. A semana que se encerra foi marcada por seu maior tropeço. Um tropeço que, ao contrário do que muitos pretendem, não joga no lixo tudo o que ele fez pelos torcedores do Brasil.

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