Esportes

Os clubes e suas casas

15 Abril 20 , por Marcos Caetano


O que acontece em nosso vizinho tradicionalmente odiado


Cada um em sua casa
Foram os três anos mais deliciosamente futebolísticos da minha vida, aqueles em que morei em Buenos Aires. Não que o futebol argentino seja melhor do que o nosso. Não que seus clubes tenham mais mística do que os de cá. Não que haja mais organização por aquelas bandas. Não é nada disso.

O que a grande Buenos Aires tem é um monte de clubes de futebol. Clubes de verdade, quero dizer, com muitos e apaixonados torcedores. E todos têm seus estádios – eis aqui a diferença fundamental. Nem todos possuem uma épica Bombonera ou um monumental de Nuñez. Mas todos têm seu campo, seu recanto, sua casa.

A delícia de se acompanhar o futebol em terras portenhas começa com as rivalidades profundas e exageradas, envolvendo, dois a dois, todos os clubes da capital e cidades periféricas. Assim, além do superclássico River x Boca, que divide a nação ao meio, temos também as eternas sagas envolvendo as equipes de menor torcida. Menor, porém real.

Já estive no estádio da modesta Platense, clube que certa tarde reuniu 5 mil fanáticos para, debaixo de uma chuva de granizo, medir-se com o eterno rival, Argentinos Juniors. Da mesma forma, estádios espalhados pela cidade se enchem para os embates entre viscerais inimigos. Em Avellaneda, cada um com seu estádio, separados por apenas 200 metros, Independiente e Racing se odiarão para sempre.

Na Zona Sul, Banfield x Lanús é o grande confronto, assim como Vélez e Ferrocarril são os Irmãos Karamazov da Zona Oeste de Buenos Aires. Boedo e Parque Patrícios são bairros vizinhos e profundamente ressentidos um com o outro, por razões eminentemente futebolísticas. “Vamos a quemar Boedo!”, cantam os “hinchas” do Huracán, quando vão jogar como visitantes diante do San Lorenzo, sua nêmese.

Nueva Chicago x Chacarita Juniors é sabidamente a mais intestina rivalidade do futebol argentino, comparável apenas à que existe entre Rosário Central e Newell’s Old Boys, em Rosário. “Leprosos”, dizem os fãs do Rosário sobre os do Newell’s. “Canalhas” – revidam os do Newell’s. Mas isso foi antes. Hoje, as torcidas assumiram os apelidos e, assim como o urubu para o Flamengo, o que era pejorativo se tornou identidade. “Aqui, somos todos canalhas”, me disse um tranqüilo senhor rosarino, ao me apresentar à sua família. Se eu não acompanhasse futebol, não teria entendido bulhufas.

A rivalidade é a mesma em outras cidades do país, como Córdoba, que passa a noite em claro na véspera de um Talleres x Instituto. Todos os clubes que citei, do pobre Chacarita ao poderoso Boca, têm estádios próprios. O Boca sabe que é difícil ganhar do River em Nuñez – e vice-versa – assim como o Chacarita sabe que não é fácil vencer em Nueva Chicago. Essa é a graça do futebol. Do futebol e dos outros esportes. Nos Estados Unidos, não se monta um time antes de se erguer estádio. O estádio é, a um só tempo, a casa e a alma de um time, seja de beisebol, seja de futebol.

É por isso que eu celebro a decisão que permitiu ao Palmeiras disputar em sua casa uma das partidas da semifinal com o São Paulo. Se um estádio pode ser usado durante um torneio, pode e deve ser usado também nas finais. Por outro lado, é triste constatar que grandes clubes como Corinthians, Flamengo e Fluminense não têm estádios de porte, de onde poderiam mandar seus jogos e fortalecer a mística dos grandes clássicos. Um estádio que tenta ser de todos, como o Maracanã – e até mesmo o Morumbi, apesar de pertencer ao São Paulo –, acaba não sendo de ninguém.

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