Esportes

Canarinhas

28 Setembro , por Redação


Meninas de ouro


Nossa seleção, com sua mítica camisa amarela, é temida por todas as equipes do mundo. Os jogos do nosso time se transformam usualmente em récitas, com uma sucessão de lances que combinam refinamento com velocidade, virtuosismo com determinação, brilho com luta. A principal peça do nosso elenco é também uma estrela global, reverenciada por todos. O mundo se curva diante de sua genialidade, de sua capacidade de inventar jogadas que, até então, eram consideradas impossíveis. Temos uma final pela frente, antes da consagração definitiva, mas ninguém crê no tropeço de um grupo que o mundo aprendeu a amar.
 
O parágrafo acima poderia ter sido escrito às vésperas da final da Copa do Mundo de 1970. Não foi. Desde então, jamais surgiu um time capaz de merecê-lo. Mas agora existe. Não, o parágrafo não se aplica à Seleção Brasileira masculina de futebol. É a Seleção Brasileira feminina que ele pretende homenagear. É do time comandado fora de campo por Jorge Barcellos e dentro de campo pela extraordinária Marta, a melhor jogadora do planeta, que estou falando. Na última quinta-feira, diante das norte-americanas, nossas eternas algozes, de quem só havíamos ganhado uma vez – apesar da derrota injusta na última final olímpica –, Marta e companhia conseguiram uma goleada que estremeceu as bases do futebol feminino.
 
Os Estados Unidos estão para o futebol feminino como o Brasil – não o atual, mas o do conjunto da obra, o dos cinco títulos mundiais – está para o futebol masculino. Quando uma seleção como a norte-americana cai do pedestal com uma derrota tão desconcertante, 4 x 0 com direito a olé, bolas na trave e muitas chances desperdiçadas, é porque surgiu uma nova potência. A Seleção Brasileira feminina já havia mostrado ser capaz de belas exibições, como nos últimos Jogos Olímpicos e no Pan do Rio, mas faltava o grande título, uma medalha olímpica de ouro ou um campeonato mundial. Faltava e continua faltando, uma vez que ainda temos que vencer as atuais campeãs, as alemãs, para podermos celebrar a sonhada conquista do Campeonato Mundial. Só que agora, mais do que nunca, nosso time parece maduro para não fraquejar na reta final.
 
Como o próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, fez questão de frisar, o Brasil se ressente da ausência de um projeto para o futebol feminino – e isso acabava refletindo no nosso desempenho nas grandes competições. Tínhamos talento, mas tropeçávamos às vezes na falta de preparo físico, às vezes na aplicação tática. Há uma enorme diferença entre jogadoras que treinam e jogam de vez em quando e jogadores que treinam e jogam sempre. Assim, países que tinham campeonatos estabelecidos, casos da Noruega, da Alemanha e dos Estados Unidos, acabavam levando vantagem sobre nosso time voluntarioso, mas com pouca prática. Coincidência ou não, a humilhante derrota dos Estados Unidos aconteceu logo após o país ter extinguido sua liga feminina.
 
Apesar da falta de um projeto, apesar da pressão do técnico norte-americano que chamou nosso time de violento (e viu seu time receber três cartões amarelos e um vermelho), nossas meninas conquistaram a vaga na grande final de domingo, em Xangai. Acredito muito na conquista, mas, mesmo que ela não venha, uma importante missão já terá sido cumprida.
 
Poucas horas depois de Blatter exigir a criação de uma liga feminina de clubes no Brasil, a CBF anunciou a criação da Copa do Brasil Feminina, como base para o futuro Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. No mesmo dia em que conseguiram sua maior vitória dentro de campo, as meninas do Brasil conquistaram também a maior vitória fora de campo. Espero que a CBF cumpra a promessa de estabelecer de uma vez por todas o futebol feminino no país. As nossas canarinhas merecem.
 

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