Esportes

Os paulistas se divertem

31 Março 2 , por Marcos Caetano


O futebol está revertendo a crença popular de que o carioca se diverte enquanto o paulista trabalha


Quem se diverte agora é...

É muito interessante comparar as fórmulas e os resultados dos campeonatos dos dois estados com mais representantes na primeira divisão do futebol brasileiro, na hora em que estes vão chegando aos seus momentos decisivos: o estadual de São Paulo, com 20 clubes, turno único e mata-matas com os quatro primeiros; e o estadual do Rio, com 16 clubes em dois grupos, dois turnos, semifinais e finais com os melhores de cada grupo e finalíssima com os campeões dos turnos.

Em princípio, as duas fórmulas prometiam emoções, com vantagem para os cariocas, que veriam mais clássicos, posto que os quatro grandes acabariam jogando várias vezes entre si. Na prática, em função da baixíssima qualidade dos coadjuvantes do Rio, o Campeonato Paulista está bem mais emocionante.

Acredito que 20 clubes são muita coisa para a primeira divisão do futebol paulista. O ideal seria um campeonato com 16 ou, no máximo, 18 clubes. Entretanto, os 20 clubes do Paulistão são um absurdo bem menor do que os 16 do Cariocão. Desde que o Bangu sagrou-se campeão em 1966, os quatro grandes do Rio dividem entre si, ano após ano, a glória do título estadual.

Em São Paulo, ainda que com um natural predomínio dos grandes, já vimos clubes como a Portuguesa, a Inter de Limeira, o Bragantino, o Ituano e o São Caetano dando voltas olímpicas. A presente edição não deixa dúvida: o Guaratinguetá lidera, com Ponte e Barueri ainda na disputa das vagas para as finais. Os quatro grandes estão firmes na luta, mas, em São Paulo, chegar às finais não é um mero trâmite.

Enquanto isso, aos pés do Cristo Redentor, um monte de clássicos, mas quase nada de emoção. Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo se cruzam quase todo final de semana, mas emoção que é bom... A concorrência dos times menores é tão fraca que nenhum deles conseguiu sequer uma vaga para as semifinais, nos dois turnos. Na verdade, nem chegaram a sonhar com isso.

Como conseqüência, os grandes voltaram suas atenções para a Copa do Brasil e a Libertadores, atuando em muitos clássicos com seus times reservas. É o que veremos no Fluminense x Botafogo deste final de semana. Foi o que vimos no Botafogo x Flamengo, rodadas atrás. Foi triste ver o centroavante Washington, do Flu, forçando um cartão amarelo contra o Mesquita para não precisar enfrentar o Botafogo. O razoável seria justamente o oposto: o craque de um time forçando o terceiro cartão contra o Botafogo para não precisar enfrentar o Mesquita.

Um campeonato estadual em que clássicos se transformam em amistosos é um campeonato estadual mal planejado. Acredito que uma boa fórmula para o estadual do Rio seria fazer uma primeira fase – que poderia começar ainda no final do ano anterior – apenas com os clubes pequenos. Os quatro melhores colocados se juntariam aos grandes numa fase final, com oito clubes e jogos de ida e volta.

Isso desgastaria menos os grandes, que teriam melhores condições de disputa na Copa do Brasil e na Libertadores, e traria mais emoção aos jogos, uma vez que, com apenas 14 partidas, mesmo os confrontos contra os pequenos valeriam muito. Se a finalíssima for desejada, basta dividir os oito clubes em dois grupos de quatro.

Quando o Paulistão não tinha a fase de mata-matas e o Cariocão menos clubes, os cariocas usualmente se divertiam mais com seu campeonato do que os paulistas. Com o inchaço do estadual do Rio e os mata-matas em São Paulo, o futebol está revertendo a (errada) crença popular de que o carioca se diverte enquanto o paulista trabalha.


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