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Esportes
“Eu não consigo mais”
22 Fevereir , por Marcos Caetano
É, por assim dizer, um choro de emoção, muito mais do que de tristeza. Já a dor de Guga e Ronaldo nos levam a um choro diferente, de tristeza e frustração. Parar no fim é difícil. Parar antes do fim é devastador.
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Não é que eu queira parar. Mas eu não consigo mais...”
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No dia seguinte, aos quinze minutos do segundo tempo do jogo Milan x Livorno, Ronaldo fez menção de saltar para tentar uma cabeçada. Não conseguiu. Uivou de dor, levou as mãos ao joelho e desabou no chão. O choro do maior artilheiro da história das copas do mundo não deixava dúvida: ele havia sofrido mais uma grave contusão, numa carreira marcada por graves contusões. Há quem diga que o episódio marcará o fim de sua carreira – também brilhante e inesquecível.
Os dois dolorosos episódios, envolvendo os maiores ídolos esportivos brasileiros desde o final da última década, nos forçaram a uma reflexão sobre a melancolia do final das carreiras e, especialmente, sobre o desolamento das carreiras abreviadas. Da mesma maneira que ficamos melancólicos quando acaba um filme bom, o final de semana ou as sonhadas férias, não gostamos de ver um grande craque dizer adeus.
Vejam a novela Romário, na qual grandes clubes se digladiam apenas pelo privilégio de ver o veteraníssimo craque de 42 anos se despedir com suas camisas. O próprio Romário não se cansa de demonstrar o quanto dói colocar um ponto final na carreira. Chorou ao se despedir da Seleção, ao marcar o gol mil e até durante o julgamento que o possibilitou jogar mais algumas partidas.
Não é difícil me surpreender chorando na despedida de um ídolo do esporte, seja ele do atletismo, em sua última volta na pista; do boxe, após vencer um adversário medíocre ou perder de alguém muito mais jovem; no futebol, em partidas beneficentes, repletas de barrigudinhos; e até nos esportes norte-americanos, que adotam a belíssima prática de “aposentar” o número das camisas dos principais ídolos, hasteando-as no teto dos estádios.
É, por assim dizer, um choro de emoção, muito mais do que de tristeza. Já a dor de Guga e Ronaldo nos levam a um choro diferente, de tristeza e frustração. Parar no fim é difícil. Parar antes do fim é devastador.
Até onde teria chegado Guga, tricampeão de Roland Garros e grande vencedor do Master Series – quando venceu um a um todos os grandes tenistas de sua geração –, se sua carreira não fosse abreviada pelas dores no quadril e as sucessivas cirurgias para tentar eliminá-las? Será que Nadal teria sido páreo para o Manezinho da Ilha no saibro francês? E o todo-poderoso Federer? Seria tão todo-poderoso assim diante de um Guga imbatível no barro e cada vez mais consistente nas superfícies rápidas? E o Fenômeno? Quantos outros gols ele teria marcado em copas, caso tivesse jogado sempre com as melhores condições físicas? Teríamos perdido da França em 1998 e 2006 com ele voando em campo? Perguntas assim me deixam louco. E triste, com vontade de chorar as mesmas lágrimas vertidas por nossos campeões.
Desejo a Guga um adeus honrado e guerreiro em Roland Garros 2008. E a Ronaldo, que volte a jogar e só se despeça do futebol após ter marcado muitos gols pelo seu amado Flamengo. Como dizem os boxeadores, um campeão tem sempre uma última grande luta guardada em seu coração. Que o coração dos nossos dois grandes ídolos possam ter essa última luta muito bem guardada.
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