Esportes
Driblando o esquecimento
18 Janeiro , por Marcos Caetano
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Há 25 anos, o Brasil perdeu o mais amado de todos os seus jogadores. Com apenas 49 anos de idade, pobre, esquecido e vitimado por uma cirrose hepática, o menino-homem chamado Garrincha deixou-nos para sempre no dia 20 de janeiro de 1983. Já contei essa história uma vez, mas acho oportuno repeti-la hoje. Em 2002, a caminho de Niigata, Japão, onde iria cobrir um jogo da Copa do Mundo, um torcedor chamou minha atenção. Era um senegalês, com cerca de 60 anos, retrato vivo da alegria de seu país após a vitória sobre os antigos colonizadores franceses. Em suas mãos, uma tabuleta, que ele carregava para todos os lados como um troféu. A tabuleta não fazia referência a Senegal, aos franceses e nem mesmo à Copa. Ela trazia apenas um tosco desenho da bandeira do Brasil e uma mensagem curta: “Garrincha, eu me lembro”. Sem medo de parecer piegas, confesso que chorei ao ver aquilo.
Lembrança e esquecimento: a trajetória de Garrincha pode ser explicada por essas duas palavras. Ele nasceu num lugar esquecido: Pau Grande, pequeno distrito do interior do Rio. Lá, obteve o reconhecimento da comunidade local, tornando-se ídolo da várzea. Animou-se, assim, a tentar a sorte num grande clube. Foi desprezado nos primeiros testes, pois ninguém acreditava que alguém com as pernas tão tortas pudesse andar, quanto mais jogar futebol. O Botafogo de Nilton Santos, entretanto, teve a grandeza de perceber seu talento. No Glorioso, Garrincha despertou para as multidões. Ou melhor, como preferiria Nelson Rodrigues, fez despertar as multidões.
Ao chegar à Seleção Brasileira, o Anjo das Pernas Tortas foi uma vez mais esquecido: Vicente Feola deixou-o no banco nas duas primeiras partidas da Copa de 1958. Liderados por Didi, os companheiros de Garrincha lembraram do talento do ponta e de outro garoto genial, Pelé, e exigiram a escalação de ambos na terceira partida. O técnico cedeu, a dupla jogou contra a União Soviética, o Brasil venceu com um espetáculo inesquecível dos garotos e, dali em diante, nosso time jamais perdeu quando os dois estiveram juntos em campo. Ganhamos aquela Copa, a seguinte – e mesmo na Copa de 1966, quando demos vexame, nossa única vitória foi obtida com eles em campo. Brasil 2 x 0 Bulgária, um de Pelé e um de Garrincha, de falta. Depois daquele gol, já com sérios problemas nos joelhos, castigados que foram por joões humilhados por seus dribles, Garrincha foi sendo esquecido pela Seleção, depois pelo Botafogo, e perambulou por vários clubes até encerrar a carreira sem maiores honrarias.
Quando já estava devastado pela doença, lembraram-se dele pela última vez. Um jogo beneficente foi organizado, para arrecadar fundos para o pobre craque. Naquela partida, arrastando toda a sua miséria pelo campo, Garrincha foi um pastiche de si mesmo. No final do jogo, o piedoso zagueiro do time adversário parou na frente do craque, abriu bem o compasso das pernas e permitiu que o homenageado passasse a bola entre elas. Alquebrado, mancando, num último suspiro, Garrincha conseguiu executar o drible. Quase na pequena área, sem marcação, Mané pôs toda a força que tinha no chute. Se tivesse rolado a bola para a meta, o arqueiro teria consentido ao herói seu último gol. Mas o arremate saiu para o alto, longe, muito longe da meta. Aquele foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Dizem que a última visita ao humilde túmulo de Garrincha, em sua cidade natal, ocorreu em novembro. No entanto, o senegalês se lembrou dele, eu me lembro dele – e o leitor certamente se lembra também. O esquecimento foi o mais tenaz marcador de Garrincha, mas, graças à sua arte, nosso herói sempre soube driblá-lo.
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