Esportes
Milagre de Natal
21 Dezembro , por Marcos Caetano
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É noite na faixa de Gaza. Na rua de terra batida, sobre a qual repousam pedras que horas antes haviam sido arremessadas do outro lado do muro de concreto, meninos israelenses jogam futebol. A luz é fraca, de forma que os garotos são obrigados a trocar passes curtos em direção ao gol adversário. Passes longos não servem, pois mal se enxerga quem está a mais de um par de metros de distância. As crianças rodeiam a bola como os mosquitos cercam a lâmpada solitária do poste de iluminação. Sou capaz de jurar que as marcas no poste são de tiros de fuzil. A bola, centro do universo dos meninos, vai sendo carregada pela constelação de pequenos astros que gravitam ao redor dela, ora para lá, ora para cá... Até que um chute mais forte a lança para o outro lado do muro, para um outro país. Para o outro lado do mundo.
Conformados, os meninos começam a se retirar em direção às suas casas. A bola jamais voltará. Eles cresceram com a noção de que a única coisa capaz de voltar do outro lado daquele muro são as pedras que eles eventualmente arremessam para lá. Um dos meninos tinha pequenas cicatrizes na cabeça, fruto de pedras que vieram do outro lado. Ou voltaram. Isso pouco importa. A bola jamais voltará.
O perfil de Nova York jamais foi o mesmo depois que os proprietários dos Brooklin Dodgers demoliram o estádio da equipe e a mudaram para Los Angeles. Tragédias do esporte são assim: uma bola perdida, um time que se vai, a derrota na Copa do Mundo, o recorde não alcançado por uma fração de segundo, o gol anulado. O esporte é mais sutil do que a vida concreta. Suas metáforas são mais delicadas. Seus seguidores, mesmo os mais fanáticos, são mais afetuosos.
Em 2001, o perfil da grande cidade americana foi violentado outra vez. E não pelos românticos guindastes que puseram abaixo o campo dos sonhos dos imigrantes do bairro operário do Brooklin, mas por um covarde ataque de assassinos que alegavam agir em nome de um deus deles, supostamente melhor que o deus das outras pessoas. Deuses que guerreiam, derrubam arranha-céus, erguem muros e põem fim ao jogo de futebol de pobres meninos de fronteira. Deuses do esporte não são assim. Eles paralisam guerras, como Pelé fez na África. Jamais as iniciam.
Ainda em Nova York, meses depois do atentado. O ídolo maior do time que sucedeu os Dodgers no coração dos trabalhadores – os Yankees – atende pela alcunha de ''El Duque'' Hernandez. Ele veio de outro país, fugindo de um regime político repressor. Hernandez é cubano. E só mesmo a magia do esporte para fazer com que a maior ilha do capitalismo adotasse como herói um cidadão da última ilha comunista no mundo. O esporte desconhece fronteiras políticas. Suas diferenças são sempre visíveis, mensuráveis, incontestáveis. E se as nações mais ricas têm um compreensível domínio em algumas modalidades, há sempre um Garrincha, um ou um corredor do Quênia pronto para derrubar preconceitos. As diferenças do esporte não são definitivas.
De volta a Gaza, um som abafado é ouvido pelos meninos. Algo se chocara contra o chão – algo bem diferente de uma pedra. Eles voltam o olhar para seu campo dos sonhos e se deparam com ela: a bola. Embora os meninos israelenses e palestinos não atentem para a data, é noite de Natal. Nenhum jornal noticiará o evento, mas ali, naquela rua de terra batida e mal iluminada, mais um milagre do esporte acaba de ocorrer.
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