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Esportes
Moral de churrascaria
17 Dezembro , por Marcos Caetano
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Garçom de churrascaria rodízio não é propriamente a melhor profissão do mundo. Mas, como a perfeita metáfora de que mesmo as piores coisas podem piorar um pouco mais, existe o cara que carrega o cupim. Observe, amigo leitor: o garçom que serve o cupim tem uma vida absolutamente miserável. Perto dele, o camarada do carrinho de salmão defumado é um autêntico dândi dos rodízios, um Luis XV do bufê de saladas.
O cupim, além de ter o peso equivalente ao de um bezerro bem alimentado, não é conduzido até as mesas num carrinho. Vem mesmo no espeto, pingando mais do que bucha de balão. E o pobre-diabo que o carrega, além de ter que sustentar a pesada peça com uma só mão (já que a outra segura o facão e o indefectível pratinho aparador de pingos de banha), precisa conviver com os agressivos olhares dos comensais. Estes, encaram a peça que o trêmulo e suado sujeito exibe num misto de nojo e espanto, visto que o cupim, na prática um grande naco de sebo, é sabidamente a carne mais detestada do churrasco. E, como quase ninguém come o abjeto repasto, o espeto do infeliz garçom continua pesado até o final da noite.
A moral da fábula – chamemos assim – do cupim de churrascaria encontra sua aplicação futebolística como um alerta aos clubes que cumpriram campanhas pífias em 2007: o que está ruim sempre pode piorar. A moral, de uma ululante obviedade, é seguidamente desprezada por dirigentes, técnicos, jogadores e torcedores. Ao final de toda e qualquer temporada, não importando o que tenha acontecido de fato, todos estão sempre otimistas. Os dirigentes por velhacaria, os técnicos por auto-suficiência, os jogadores por dever de ofício e os torcedores pela eterna fé em milagres que não virão.
Não há dirigente que a esta altura do ano não esteja dando declarações com promessas de um grande time e campanhas inesquecíveis para o ano que vem. Dissimuladamente, falam em títulos, voltas olímpicas, taças formidáveis. Os dirigentes são os piores, pois, por terem conhecimento da real situação dos clubes, tinham a obrigação de ser mais realistas. Já os técnicos acham que sabem tudo e, portanto, ganharão tudo. Os jogadores, mesmo quando jogam mal continuam se considerando selecionáveis, embora mal-aproveitados pelos técnicos e injustiçados pela torcida. Eles acreditam sinceramente que a próxima temporada será melhor. Mas, quando o assunto é a confiança em dias melhores, ninguém se compara aos torcedores.
Ah, os torcedores... Com a chegada do Natal, a crença em Papai Noel atinge níveis alarmantes entre eles. O que, além de otimismo crônico e incurável, justificaria dar crédito a velhas promessas de velhos dirigentes? Ano após ano, todo final de tarde de dezembro, os cartolas anunciam, providencialmente antes do fechamento dos jornais e dos programas esportivos de rádio e TV, o interesse em um novo reforço de peso. Quem ainda acredita nisso? Muita gente, posso garantir. Jornais esportivos vendem muito bem, mesmo sem jogos para cobrir. Os acessos aos sites de notícias futebolísticas explodem no final do ano. O torcedor é um otimista nato – e precisa apenas de um bom boato para sair às ruas gritando o nome de craques que jamais vestirão a camisa do seu time.
Para encerrar, lembro que a moral de churrascaria também se aplica aos clubes que foram bem em 2007. Seu clube, amigo leitor, pode ter carregado levíssimos espetinhos de coração de frango em 2007 e ganhado muitas gorjetas. Mas isso não garante que ele está livre de ter que carregar o pesado e gordurento espeto de cupim no ano que vem. Cuidado com as falsas promessas.
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