Gol de salto alto
O sonho custa caro
17 Março 2 , por Renata Rondino
Projeto de estádio corintiano é um investimento inviável
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Será só mais um sonho? |
Porém, muitos corintianos, entre torcedores e dirigentes, continuam animados. Acreditam que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil fará com que uma nova e concreta oportunidade apareça, e que finalmente o estádio saia do papel.
Pelos números do último projeto, haveria um investimento de R$ 350 milhões e as construtoras tirariam um lucro de R$ 40 milhões por ano com os camarotes e cativas, além do direito de emprestar o nome da empresa ao estádio por 10 anos. E é justamente essa conta que torna o empreendimento inviável.
Isso porque não existe a menor possibilidade de o estádio do Corinthians gerar um lucro de R$ 40 milhões por ano. Nem que se exagere no otimismo até beirar a histeria.
Vamos por partes: o São Paulo conseguiu, em 2006, um lucro de aproximadamente R$ 10 milhões com o Morumbi. A receita com camarotes, cativa, publicidade e aluguel do estádio para jogos ficou em R$ 10 milhões. Considerando-se os rendimentos com bilheteria, esse número sobe para R$ 29 milhões. Agora é preciso desconsiderar os custos de manutenção do estádio, que em 2006 ficaram em quase R$ 6 milhões, além das despesas com os jogos em si.
Isso porque estamos considerando que no Morumbi cabem pelo menos 60 mil pessoas, e que o São Paulo está há anos luz na frente dos demais clubes brasileiros em termos de marketing esportivo. Se com um estádio daquele tamanho o lucro é de R$ 10 milhões, por que o Corinthians teria R$ 40 milhões?
“No mesmo ano o Corinthians conseguiu apenas R$ 9,3 milhões de bilheteria. Nesse patamar, não justifica o investimento em um estádio”, diz Amir Somoggi, da Casual Auditores, especialista na área esportiva. “Supondo que consiga um faturamento de R$ 500 mil por jogo, o que é muito, ainda assim seriam R$ 15 milhões em 30 jogos”, acrescenta.
“Não é assim um negócio imperdível construir estádios no Brasil. Tanto é que, mesmo com o anúncio da realização da Copa do Mundo, um único investidor privado se manifestou até agora”, afirma Somoggi. Há de se considerar ainda que o calendário de jogos, de eventos, a transmissão pela TV e o pay per view não ajudariam em nada a engordar o faturamento dos clubes com estádios.
Somoggi usa outro exemplo: o Engenhão, que ficou sob a administração do Botafogo, cujo investimento foi de R$ 350 milhões, e que gerou só R$ 6 milhões de bilheteria no ano passado. Como negócio, dinheiro perdido. “Já o Arsenal, na Inglaterra, conseguiu gerar um lucro de 135 milhões de euros em um ano, para um estádio avaliado em 550 milhões. É uma diferença gritante em termos de administração e marketing esportivo. É um longo caminho que os clubes brasileiros ainda precisariam percorrer”, avalia.
Se o Corinthians, num milagre divino, conseguisse bater o São Paulo e dobrar o lucro anual com um estádio, chegando aos R$ 20 milhões por ano – o que é muito, muito difícil -, ainda assim seria um retorno muito baixo para quem investiu R$ 400 milhões para erguer uma monstruosidade daquelas do chão. Em dez anos é impossível se recuperar o investimento. E ninguém vai construir um estádio só porque é corintiano.
Há de se considerar ainda que a construção de um estádio para o Corinthians não fará os torcedores irem em massa da noite para o dia em todos os jogos. Fosse assim tão fácil, os projetos de carnês para temporadas teriam vingado há anos. Portanto, seria primeiro preciso trazer os torcedores de volta para os jogos e, com isso, criar-se uma demanda. No caso do Corinthians, está se imaginando que milhões e milhões de reais vão aparecer nos cofres num passe de mágica, que o clube terá 50 mil torcedores por jogo, e que todos sairão gastando a torto e a direito.
No começo, com o entusiasmo, pode até ser. Mas a euforia não se sustenta.
E ainda há um outro detalhe: o histórico do Corinthians de parcerias fracassadas, fraudes, problemas contábeis e prejuízos constantes não servem para o clube seja a menina dos olhos dos investidores.
Ou alguém ainda aposta?
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