Visão

Pensar por pensar

15 Abril 20 , por Julio Pimentel


O que acontece ao nosso redor depende de nós


Ben-te-vi

Da varanda do meu apartamento avisto uma bela árvore no quintal do vizinho. Aliás, avisto só, não – quase posso tocá-la, pois alguns galhos invadem amistosamente nosso espaço. Um casal bem idoso mora ali, que raramente vejo e com quem não falei mais do que três vezes. Na última delas elogiei a árvore, que o homem me contou ser um pé de sirigüela, prometendo dar-me algumas quando fosse época. Já foi a época e ele certamente esqueceu, porque tive que provar das poucas frutinhas que caíram do lado de cá do muro.

Numa manhã destas estava lendo na varanda, quando percebi um movimento nas folhas verde escuro da árvore frondosa. Espreitando, percebi um pequeno pássaro, que não consegui identificar, na minha ignorância de flora e fauna, herança de uma infância urbana. Então o visitante emitiu um grito agudo, que julguei desproporcional ao seu tamanho:

- piiiiiiiiiiiiiiiii !

Compassadamente, o grito que a mim pareceu angustiado, foi repetido por muito mais vezes, até que chegou uma resposta – um piado tranqüilo:

- piiiu

Por mais algumas vezes ele emitiu o seu grito, agora acompanhado da
resposta:

- piiiiiiiiiiiiiiiiii !
- piiiu

Foi então que ele se identificou:

- Bem-te-vi !

E por varias vezes repetiu que bem te via, o que me deixou realizado por poder identificá-lo, afinal. Depois de um curto diálogo, voaram os dois e sumiram, deixando-me entretido em pensar no que eles estariam conversando.
 
Imaginei que ele chamara a fêmea, impositivamente como compete a um pássaro macho –  “estou aquiiiiiiiiiii ...” Ela atendeu seu chamado e se aproximou, dizendo ternamente “eu vim”, ao que ele respondeu, repetiu e repetiu que bem tinha visto e encerrou a conversa com um “na minha árvore, ou na sua?” Como saíram voando, tudo indica que foram para a árvore dela...

Já ia voltando para o livro, quando me ocorreu que podia muito bem ser o contrário, ou seja, os gritos eram da fêmea e ela reclamava que aquelas não eram horas do macho voltar, ao que ele respondia, tentando se justificar, “não fuiii”. Mas a fêmea, implacável, acusava “bem-te-vi”! e foram continuar a discussão diante de sua comunidade plumada.

E naquele pensar por pensar, divertimento matinal de um domingo, percebi que, se não consigo entender os sinais mais simples e primitivos da natureza, como querer interpretar e julgar os sentimentos e manifestações dos seres humanos, tão complexos e dissimulados? Só pode ser arrogância.

Assim, para me desvencilhar do emaranhado de conseqüências que estavam se aproximando com esse pensar, achei melhor deixar pra lá e retornar ao livro, historia com começo, meio e fim, que o autor se deu ao trabalho de interpretar para mim, sem dúvidas nem angústias.


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