Visão

Paixões pelo BBB e outras

31 Março 2 , por Julio Pimentel


Que tipo de paixão é esta?


Chega disso

Enquanto tantos brasileiros se ilustravam vendo o BBB para ter o que comentar na segunda-feira, na GloboNews, William Waack apresentava o “Painel”, com um debate altamente interessante, esse sim educativo, sobre outro problema um pouquinho mais importante que os bastidores da “casa mais visitada do Brasil”: a Dra.Mayana Zats, que depois das páginas amarelas de Veja se confirmou como referência na discussão de pesquisas com células-tronco embrionárias, debatia o tema com dois outros pensadores, da PUC e da UNICAMP.

Alto nível numa discussão oportuna, que mostra que cada vez mais os assuntos transcendentais estão sendo trazidos para a população pensante, ajudando a formar opinião.

Um dos seus opositores, que tentava definir (com muita elegância) a veemente defesa da geneticista, disse que ela estava tomada de forte paixão pela sua causa e que “a paixão causa a temporária perda da racionalidade”.

O Aurélio confirma que é isso mesmo, que paixão é “sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez a à razão”. Depois apresenta mais uma porção de significados, todos na mesma linha.

Toda essa volta, para lembrar que várias campanhas de publicidade estão usando atualmente a paixão como tema. Destaco, entre outras, as Lojas Salfer em Santa Catarina, que garantem que são “apaixonadas por você”, garantia reforçada com uma vinheta musical; a Vale (!) também apregoa que seus milhares de funcionários, ou seja, a empresa, estão apaixonados por nós, que nem somos seus consumidores diretos; e, com grande estardalhaço, a nova campanha da TAM nos ensina que é uma empresa de aviadores e que todos assinam embaixo do compromisso de serem apaixonados por voar e por servir.

Alguém aqui aceita que a paixão seja um atributo positivo, numa relação que, em ultima analise, é comercial? Mais ainda: alguém acredita que uma organização possa se movimentar emocionalmente em perfeita sintonia interna e fazer com que todos os seus colaboradores dediquem uma avassaladora paixão total aos seus consumidores? Não um só, o dono ou o presidente, mas todos, sem exceção. É de se acreditar?

Parece mais ser uma questão de usar palavras, principalmente as que são de uso comum e emocionam, sem atentar criteriosamente para o seu real sentido.

No caso da TAM, a campanha busca claramente remeter a uma época não muito distante, em que obtinha enorme sucesso com a ativa figura de seu fundador e presidente, o aviador Comandante Rolim. Estratégia perfeita, na minha humilde avaliação, mas daí a dizer que os milhares de funcionários são apaixonados por voar e por me servir, fica falso.

Que alguém se deixe vencer pela paixão pelo BBB vá lá, mesmo que signifique distanciar-se da razão, pois cada um faz da sua o que quer, mas aviação é uma atividade que requer o máximo de lucidez e razão, e não queremos que nada se sobreponha a isso, como diz o Aurélio, não é mesmo?


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