Visão

A Velhinha de Taubaté, minha sogra e eu

24 Setembro , por Redação


Ela acreditava em todas as informações e versões recebidas


A Velhinha de Taubaté quase todos lembram, é personagem criada por Luiz Fernando Veríssimo para encarnar a síndrome do tudo bem. Fervorosa admiradora de quem estava no poder, ela acreditava em todas as informações e versões recebidas. Aliás, dizem hoje as más línguas (ou, quem sabe, as mais perspicazes), que o autor incorporou a personagem e poderia estar morando em Taubaté, travestido de vovó. O fato é que a figura colou e sempre é usada quando se quer falar de alguém extremamente crente, à beira da ingenuidade e/ou da conveniência.


Minha sogra tem 92 anos, é lúcida, procura se manter atualizada via TV e leitura, e exercita uma postura crítica coerente com os critérios que estabeleceu em uma vida. Ela tem acompanhado as mazelas de nossa vida política e pública e vive vaticinando, ante cada novo caso: “isso vai dar em pizza”. Não foi diferente quando começou o caso Renan, mas eu dizia que não, que agora era impossível, ela não viu o que aconteceu no Tribunal Superior com os 40 mensaleiros? Bella (é assim que ela se chama), o Brasil está mudando, enfatizei, dando vazão a uma mínima luz que via no fim do túnel, após o histórico julgamento dos mensaleiros. Mas na verdade, eu expressava o que os do norte chamam de wishful thinking, ou seja a vontade de que fosse assim, mas sem convicção, mordido que fora por tantas e tão feias tretas e decepções.
 

No dia 12 passado, enquanto o casal JN esmiuçava o andamento e o resultado daquela ridícula reunião secreta do Senado, que decidiu o destino do seu presidente, minha sogra, na poltrona ao lado, me olhava firmemente e disparou sem pena: “não falei? Deu pizza de novo...”


Que tristeza! Uma lástima não ter como retrucar, como explicar. Ainda arrisquei dizer que existem mais dois processos, que não vai ficar assim, mas percebi nos olhos e no sorriso de minha nonagenária sogra, uma quase acusação de ingenuidade.


Foi quando me senti um pouco como a Velhinha de Taubaté...


Mas reagi imediatamente. Vou continuar me indignando, falando, não vou me enfurnar no meu interior (que o Veríssimo projetou para a cidade de Taubaté), vou fazer coro com a Bella e com todos os cidadãos que ainda lutam. Abaixo a pizza, queremos justiça!

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